Seria possível substituirmos nossa luta pelo socialismo por uma na busca de um Estado apenas mais provedor mantendo assim o capitalismo? Essa é uma questão que assola a esquerda e que para muitos depois dos anos 1960 -- hoje eles todos em processo de degeneração e falência -- a resposta foi sim. Mas cabem algumas reflexões.
Uma delas é se haveria Estado de Bem-Estar Social em alguns países da Europa não fosse o capitalismo
americano e europeu fincado na exploração do então e dito terceiro
mundo. Antes de mais nada é preciso dizer que o Welfare State só foi possível de ser conquistado porque havia a ameaça do perigo
vermelho, que desde muito antes na URSS possibilitava aos trabalhadores uma
condição de vida e dignidade que no lado do Ocidente capitalista não havia. E só
houve Estado de Bem-Estar Social na Europa e uma boa vida nos EUA para a
classe trabalhadora porque havia ditaduras financiadas nos trópicos e
um histórico de pilhamento do povo da América Latina e África pelos
capitalistas das potências setentrionais.
Este fato inconteste muitas vezes ignorado é apenas uma das faces de não entender o capitalismo como uma questão global que precisa ser entendido na sua totalidade; analisá-lo a partir de frações é a melhor forma de não entendê-lo. Ou de
se fazer o entendimento que bem se queira.
Dizer que a URSS não
era democrática, ou verdadeiramente democrática, nos impõe uma questão: quem era uma verdadeira democracia, então? Os EUA impedindo que negros e mulheres tivessem os mesmos direitos que a parcela masculina branca? O papo
um tanto descolado da realidade de que apontar os erros de um não
converge em aceitar a realidade do outro nega um fato dado e concreto:
que foi esse discurso e ainda o é que demoniza a experiência soviética e
que reafirma o capitalismo e a democracia burgo-liberal como
inquestionáveis e o objetivo único a seguir. A militância petista
gritando por democracia não como um método tático, mas como fim
estratégico não me deixa mentir. Afinal, democracia aqui é entendida como mero direito à liberdade de expressão e voto formal. Direito à educação, dignidade, moradia, saúde, lazer e todo o resto não são incluídos no conceito.
Cabe perguntar: que democracia temos, com saúde e
educação precarizadas para a maior parte da população, lazer
privatizado, violência urbana e uma população enorme à margem? Ah, mas
você pode votar e escrever besteiras na internet, dirá alguém antes de bradar viva a liberdade!
É, viva. Viva a democracia burgo-liberal e o direito à liberdade de expressão (muito bem cerceados quando incomodam o status quo, diga-se.)
E o discurso de que a população do Leste europeu estava saturada do socialismo é outra balela enfiada goela abaixo pelos meios de comunicação burgueses. Houve um plebiscito em 1991 e 76% da
população votou pela continuidade da União Soviética. Ou seja, havia insatisfação, e isso era óbvio e não há uma única experiência de qualquer regime que seja que não tenha insatisfeitos, mas é inegável que a base de apoio era bastante maior do que a que se encontra hoje nos... EUA! Em 2008 fez-se uma pesquisa perguntando o que as pessoas preferiam, se socialismo ou capitalismo. Apenas 51% disseram preferir o sistema econômico atual. Isso nos EUA... Imagine no Quênia ou no Haiti...
Continuando, o fim da URSS e do
socialismo nada mais foi que uma decisão da burocracia de Estado e dos
emergentes capitalistas de lá com apoio das oligarquias financeiras do
Ocidente. Que a URSS tinha problemas, sem dúvida os tinha, não os
tivesse o povo teria ido defendê-la, não se posicionado de modo
amorfo, mas passam esses problemas muito distantes dessa linguagem
repleta de acusações do lado dos que venceram. E os que perderam com o
fim da URSS foram indiscutivelmente os trabalhadores de todo o mundo.
Ou, para responder a questão que dá início a esse texto: em que lugar do
mundo a social-democracia sem o medo do perigo vermelho se manteve e não
deu lugar a um sedento neoliberalismo privatizante e fomentador de
exponenciais desigualdades sociais?
18/07/2016
Modismos na esquerda e a crítica a ser feita.
Por Felipe Henrique Gonçalves*
A história do pensamento da esquerda é marcada por “modas”, ciclos de
forte influência de uma determinada maneira de interpretar a realidade e
de perspectivar o futuro. Ainda que em
alguns campos do conhecimento tais “modas” tenham contribuído para o
entendimento de alguns fenômenos, a superação delas tem significado um
balanço crítico do quão nocivo certas interpretações foram para um
pensamento que se reivindica transformador. Afirmar isso em nada pode
significar a defesa de uma ortodoxia dogmática, um certo purismo, mas atentar
para o fato que de determinados ecletismos depuram a necessidade de
construção de um conhecimento científico, crítico e transformador. Sem a
pretensão de possuir um rigor temporal, aponto algumas “modas” que
podemos identificar no século XX-XXI:
Anos 30/40: o marxismo vulgar produzido pelo stalinismo e difundido pelos intelectuais da III Internacional.
50/60: o estruturalismo francês, onde encontra a sua expressão marxista em Louis Althusser.
70/80: o liberalismo/democratismo de Hannah Arendt, Noberto Bobbio e Junger Habermas.
90 - ?: pós-modernos/pós-estruturalistas influenciados pela filosofia francesa pós-1968 de Foucault, Derrida e Deleuze. Estes estão presentes principalmente nos denominados movimentos identitários, das minorias políticas e naqueles que se pretendem construir uma nova esquerda, uma esquerda diferente.
A pergunta que não quer calar: quem dará a cara à tapa com o risco de sofrer um linchamento virtual para fazer a crítica necessária à “moda” pós-moderna?
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| "Esquerdismo rosa", pós-moderno, tipicamente pequeno burguês |
Anos 30/40: o marxismo vulgar produzido pelo stalinismo e difundido pelos intelectuais da III Internacional.
50/60: o estruturalismo francês, onde encontra a sua expressão marxista em Louis Althusser.
70/80: o liberalismo/democratismo de Hannah Arendt, Noberto Bobbio e Junger Habermas.
90 - ?: pós-modernos/pós-estruturalistas influenciados pela filosofia francesa pós-1968 de Foucault, Derrida e Deleuze. Estes estão presentes principalmente nos denominados movimentos identitários, das minorias políticas e naqueles que se pretendem construir uma nova esquerda, uma esquerda diferente.
A pergunta que não quer calar: quem dará a cara à tapa com o risco de sofrer um linchamento virtual para fazer a crítica necessária à “moda” pós-moderna?
17/05/2016
"Todos Pela Educação": o think tank privatista no comando do MEC
Por Gustavo Gindre
Um dos fatos que estão passando batido nesse (des)governo Temer é a formação da equipe do MEC, onde Mendonça Filho funcionará apenas como um testa de ferro.
A equipe começará de verdade na nova secretária-executiva: Maria Helena Guimarães de Castro, braço direito do finado ex-ministro Paulo Renato. Junto com ela começa a ser montada uma equipe ligada a um think tank chamado "Todos pela Educação".
Por detrás do TPE (Todos pela Educação) estão Itaú, Fundação Roberto Marinho, Fundação Victor Civita, Fundação Bradesco e outros.
É esse pessoal que a partir de agora dará as cartas na educação pública brasileira. É o pessoal das PPPs (Parcerias Público-Privadas) , das OSs (Organizações Sociais) e de um forte programa privatista na educação.
PS: infelizmente, os governos petistas sempre tiveram uma relação dúbia com esses setores, sem aderir, mas também sem rechaçar totalmente.
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| Este é o logotipo do think tank privatista que tem banqueiros e grandes capitalistas por trás. |
Um dos fatos que estão passando batido nesse (des)governo Temer é a formação da equipe do MEC, onde Mendonça Filho funcionará apenas como um testa de ferro.
A equipe começará de verdade na nova secretária-executiva: Maria Helena Guimarães de Castro, braço direito do finado ex-ministro Paulo Renato. Junto com ela começa a ser montada uma equipe ligada a um think tank chamado "Todos pela Educação".
Por detrás do TPE (Todos pela Educação) estão Itaú, Fundação Roberto Marinho, Fundação Victor Civita, Fundação Bradesco e outros.
É esse pessoal que a partir de agora dará as cartas na educação pública brasileira. É o pessoal das PPPs (Parcerias Público-Privadas) , das OSs (Organizações Sociais) e de um forte programa privatista na educação.
PS: infelizmente, os governos petistas sempre tiveram uma relação dúbia com esses setores, sem aderir, mas também sem rechaçar totalmente.
11/05/2016
Dias difíceis virão
Por Gustavo Gindre
Hoje é um dia triste.
Não pelo fim melancólico desse governo lamentável sob qualquer aspecto.
Mas pela forma como ele se encerra (através de um "golpe por vias institucionais") e pela perspectiva de futuro, com retrocessos nos direitos sociais e uma crescente repressão travestida de democracia.
Viveremos as consequências de todo esse processo (de um governo que capitulou a uma direita
golpista que chega ao poder) por muitos e muitos anos.
Dias difíceis virão.
Hoje é um dia triste.
Não pelo fim melancólico desse governo lamentável sob qualquer aspecto.
Mas pela forma como ele se encerra (através de um "golpe por vias institucionais") e pela perspectiva de futuro, com retrocessos nos direitos sociais e uma crescente repressão travestida de democracia.
Viveremos as consequências de todo esse processo (de um governo que capitulou a uma direita
golpista que chega ao poder) por muitos e muitos anos.
Dias difíceis virão.
Evitar discurso de ódio e dialogar. E ouvir.
Por Felipe Henrique Gonçalves:
As esquerdas precisam a todo custo evitar o discurso do ódio. Na ânsia de combater o fascismo que cresce, muitos de nós estamos ouvindo menos e catequisando muito mais. O discurso do ódio deve ser monopólio exclusivo da direita. À nós cabe dialogar e “disputar” na argumentação esses que estão perdidos depois da besteira que fizeram ao ser massa de manobra para o golpe branco.
Xingar todos e tudo de fascismo é preguiça, pouco esclarece e não educa. A nossa propaganda ideológica deve ser paciente e dialógica. Se diferenciar no programa e na prática da tragédia do petismo se faz necessário, caso contrário, seremos engolidos pela “onda conservadora”. Não precisamos e não adianta fazer malabarismos teóricos. É a tão necessária política de base que precisamos fazer em curto e longo prazo. Cada um de nós precisa assumir para si a militância de conquistar corações e mentes em nosso cotidiano; da cozinha e da sala de jantar até os locais de estudos e trabalho.
Não temos tempo para a ressaca da derrota. Construir a unidade na luta para resistir aos ataques que virão e se colocar como uma esquerda que consegue viver e ser propositiva na diversidade. Não vai ter arrego, vai ter luta!
As esquerdas precisam a todo custo evitar o discurso do ódio. Na ânsia de combater o fascismo que cresce, muitos de nós estamos ouvindo menos e catequisando muito mais. O discurso do ódio deve ser monopólio exclusivo da direita. À nós cabe dialogar e “disputar” na argumentação esses que estão perdidos depois da besteira que fizeram ao ser massa de manobra para o golpe branco.
Xingar todos e tudo de fascismo é preguiça, pouco esclarece e não educa. A nossa propaganda ideológica deve ser paciente e dialógica. Se diferenciar no programa e na prática da tragédia do petismo se faz necessário, caso contrário, seremos engolidos pela “onda conservadora”. Não precisamos e não adianta fazer malabarismos teóricos. É a tão necessária política de base que precisamos fazer em curto e longo prazo. Cada um de nós precisa assumir para si a militância de conquistar corações e mentes em nosso cotidiano; da cozinha e da sala de jantar até os locais de estudos e trabalho.
Não temos tempo para a ressaca da derrota. Construir a unidade na luta para resistir aos ataques que virão e se colocar como uma esquerda que consegue viver e ser propositiva na diversidade. Não vai ter arrego, vai ter luta!
Um golpe dentro da ditadura do capital.
Hoje é um dia absolutamente histórico: é o dia que se conclui parte importante de um golpe branco em uma presidente no Brasil e fecha-se uma onda de desarranjos estruturais dos aparelhos constituídos do Estado burguês. E essa primeira onda de desarranjo mata a tentativa mais equivocada e passiva de um governo de esquerda, que é um governo conciliador que vende até a alma para se manter no poder (e não, não é um desvio de caráter, fruto de governantes cínicos; mas sim a única forma de participação possível de um grupo de esquerda no executivo dentro de uma democracia burguesa, uma forma de ditadura do capital, em tempos de crise econômica).
Morre a fase mais gloriosa do PT, morre o lulismo, morre um período de um governo de frente popular no Estado, mas também morre o engodo do republicanismo e da legitimidade das instituições burguesas conferidas por um contrato social que foi rasgado de maneira circense. O que virá é incerto, mas dá pra cravar que Judiciário, Executivo, Imprensa e todos os grandes aparelhos burgueses perderam de uma vez por todas o resto de credibilidade que tinham ante parte da população. E essa é uma perda definitiva e sem volta.
Para pisotear o tipo de reformismo mais frágil, a nossa burguesia, usando-se de setores médios insatisfeitos, vendeu a sua alma. E o preço a pagar será alto. Resta-nos, enquanto classe trabalhadora, nos organizarmos em partidos revolucionários para que o mais breve possível possamos a eles entregar toda a fatura de todas as misérias das quais são os grandes e únicos autores.
03/05/2016
Para além do coxinha versus petralha: entendendo o antipetismo
Por Golbery Lessa - Membro do Comitê Central do PCB
Se a esquerda deseja ter clareza sobre como agir diante da ampliação das manifestações organizadas por setores reacionários da classe média, precisa procurar uma explicação científica para o fato e não embarcar na versão apresentada pelo governo federal. É mais fértil procurar entender as bases econômicas, culturais e políticas do reacionarismo do que concebê-lo como um improvável desvio moral simultâneo de milhões de indivíduos. Seria desastroso fundamentar apenas na intuição o discurso e as ações contrários às dimensões ultradireitistas das manifestações ocorridas nos últimos tempos. Para a esquerda, é mais importante tentar compreender os fatos do que promover uma competição para saber qual dos seus analistas ridiculariza melhor o bizarro discurso das passeatas verde-amarelas e cria o mais engenhoso anátema para estigmatizar os setores médios.
É infértil fazer uma análise estanque das ideias e das posições políticas da classe média. Não é sustentável considerar que este grupo social tenha condições objetivas apenas de comportar-se e expressar-se de modo conservador. Como demonstrou Karl Marx, ainda no século XIX, é próprio dos setores médios da sociedade moderna oscilarem entre posições ideológicas e políticas de direita e de esquerda e, inclusive, misturarem essas posições antípodas. Na atual conjuntura brasileira, uma das provas desse movimento pendular é o fato de que um setor numeroso da mesma classe comporta-se de maneira progressista, defende a esquerda e repudia o discurso do tipo proferido por Jair Bolsonaro.
Nos últimos anos, o marketing do governo federal apostou na estigmatização dos setores médios com o objetivo de aproveitar o descontentamento de alguns dos seus estratos com o PT para “provar” que “a tradicional elite brasileira” seria contrária aos “avanços sociais” dos governos Lula e Dilma. Manipulou o sentido da palavra “elite” para que esta abarcasse apenas a classe média e fez desaparecer nessa bruma sociológica a grande burguesia aliada aos petistas. A família com renda de cinco salários mínimos ou mais começou a aparecer na fala governista como a adversária natural dos trabalhadores e a senadora Kátia Abreu, para surpresa do público, passou a ser mostrada como heroína da economia brasileira. Como cereja do bolo dessa sociologia pelo método confuso, possivelmente criada pelo marqueteiro João Santana, enquanto a classe média real se contraía, os governos petistas fantasiavam sobre a existência de uma “nova classe média” formada pelas famílias de trabalhadores com carteira assinada e acesso ao consumo de massa.
Para compreender as últimas manifestações de direita contrárias ao governo Dilma é preciso, igualmente, desconfiar dos motivos alegados pelos próprios setores médios envolvidos, pois um grupo social não é, necessariamente, o que afirma de si mesmo. Para parte da esquerda, é tentador imaginar que uma fatia da classe média está insatisfeita apenas devido a arraigados preconceitos contra os pobres, as minorias étnicas, a população LGBTT, o campesinato e o operariado, entre outros grupos. Entretanto, se observarmos os dados empíricos existentes, é possível perceber que a insatisfação tem outros motivos, a maioria de ordem econômica.
Comecemos pelo que tem sido esquecido pela maioria dos analistas: observemos os dados empíricos sobre a trajetória econômica e demográfica da classe média na Era PT. Entre 2001 e 2013, na Região Metropolitana de São Paulo (RM-SP), palco da maior manifestação do dia 15 de março passado, segundo a PNAD/2013, o número absoluto de famílias de classe média (consideradas como aquelas cuja pessoa de referência da família tinha renda mensal de cinco salários mínimos ou mais) diminuiu 31,57%, enquanto o número absoluto de famílias da classe trabalhadora (consideradas como aquelas com renda mensal inferior a cinco salários mínimos) ampliou-se 57.64%. Se observarmos a variável contabilizando a renda de todas as pessoas do núcleo familiar, a situação melhora para a classe média, entretanto, a sua trajetória passa a ser de crescimento (12,00%), mas muito menor do que o da classe trabalhadora (65,48%). Mesmo nesse caso, os estratos entre 10 e 20 salários mínimos e acima de 20 salários mínimos tiveram encolhimentos absolutos de 23,00% e 38,90%.
A constatação é ainda mais surpreendente quando comparamos esses números com aqueles das mesmas variáveis e dos mesmos parâmetros imediatamente referidos entre os anos de 1991 e 2000. Nesse intervalo de tempo, segundo os censos demográficos do IBGE, o número absoluto de famílias de classe média no Estado de São Paulo (não tivemos acesso a dados da RM-SP para o período) quase dobrou (96,61%) e o de famílias da classe trabalhadora ampliou-se em apenas 19,70%. No país, os números foram, respectivamente, 185,26% e 21,00%. Primeira conclusão: a Era PT estancou o desenvolvimento demográfico da classe média e fez dois dos estratos desse grupo social encolherem.
Se corrigirmos pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Ampliado) o valor nominal da renda média mensal das famílias calculado na PNAD/2013, constataremos que, entre 2001 e 2013, todos os estratos salariais da RM-SP tiveram um ganho real de renda aproximado de 38%. Será que a melhoria da renda das famílias de trabalhadores originou-se em recursos anteriormente de posse dos setores médios? Como, ainda segundo a PNDA/2013, apenas 4,39% dos integrantes da classe média da RM-SP eram, em 2013, empregadores de trabalhadores não-domésticos (nesse número estão inclusos os membros da grande burguesia, pois IBGE não os discrimina) e 7, 07% dos assalariados eram trabalhadores domésticos, a melhoria da renda dos trabalhadores na Era PT não pode ter se originado, a não ser residualmente, de recursos provenientes da classe média.
O aumento da renda dos trabalhadores na Era PT foi determinado por uma significativa ampliação da oferta de empregos formais em um momento de relativa estabilidade monetária. Uma tendência econômica presente em dezenas de países do Sul do planeta na primeira década do século XXI e condicionada pelo deslocamento de grandes massas de capital para a periferia do sistema. Configurou-se como um ganho dos trabalhadores na luta econômica contra o capital, mesmo que as grandes empresas tenham abocanhado a maior parte da riqueza derivada do aumento de produtividade e da ampliação das escalas produtivas.
A classe média não perdeu nada com o avanço do consumo dos trabalhadores, a multiplicação dos empregos e a expansão (mercantilizada) de algumas políticas sociais, como o Bolsa Família e os subsídios para matrículas no sistema de ensino superior. A baixa qualidade da maioria dos cursos universitários e a precariedade da assistência estudantil, entre outras variáveis, fizeram com que expansão da presença dos trabalhadores no ensino superior não lhes tenha garantido efetiva capacidade de competição com os setores médios no mercado de trabalho, representando mais uma ganho simbólico do que uma efetiva qualificação (com exceção das trajetórias individuais particularmente exitosas e motivadas por talento excepcional).
A contração demográfica de estratos da classe média foi determinada por duas variáveis: 1) nos 13 anos considerados (2001-20013), o aumento de 38% na renda real mensal não foi suficiente para cobrir o crescimento das necessidades de consumo impostas pela dinâmica da sociedade a esta classe; e 2) a reestruturação produtiva das empresas privadas e órgãos públicos, no início do século XX, baseada na diminuição dos níveis de chefia e no avanço tecnológico dissolvedor de funções especializadas, diminuiu muito os postos de trabalho para os setores médios. Esses fatores atingiram de modo distinto os trabalhadores, pois suas necessidades ainda eram as básicas e os postos de trabalho que podiam ocupar multiplicaram-se.
A sociedade capitalista é estruturada de tal modo que o nível de consumo imposto socialmente aos indivíduos desenvolve-se numa espiral crescente e avassaladora. O telefone celular e o computador pessoal, por exemplo, inicialmente apenas curiosidades tecnológicas, tornaram-se instrumentos profissionais e sociais incontornáveis. A primeira década do século XX no Brasil foi marcada por um notável acréscimo de novas necessidades sociais para as famílias de classe média, sendo suficiente elencar o crescimento da adesão aos planos de saúde, a inflação das mensalidades escolares, a ampliação dos gastos com equipamentos eletrônicos e o boom do acesso à banda larga. Diante dessa tendência intrínseca ao capitalismo, apenas o aumento correspondente da renda e das oportunidades de trabalho seria capaz de evitar disfuncionalidades e insatisfação social. O choque entre o aumento das necessidades de consumo impostas socialmente e a renda foi, no período considerado, respondido pelas famílias com a renúncia ao consumo e o endividamento, uma combinação politicamente explosiva.
Também nos governos petistas, a classe média tem perdido renda para o grande capital, principalmente por meio de preços de monopólio cobrados por faculdades privadas, bancos, planos de saúde, montadoras de automóvel e outros setores. Parte deste grupo social imputará essas perdas a qualquer governo dominado pelas grandes empresas e tenderá a usar a retórica antigovernista à mão para explicitar sua crítica e propor um governo diferente, via eleição ou impeachment. Se o governo for do PSDB ou outro partido de direita, usará a retórica da esquerda, como o fez na crítica aos governos FHC e Collor. Caso o governo seja petista e o esquerda alternativa ainda não tenha adquirido visibilidade e significativo peso político, usará a retórica da direita e mesmo da extrema direita. Vejamos uma prova empírica desse movimento pendular: poucos dias antes do segundo turno da eleição presidencial de 2002, pesquisa do Instituto Datafolha mostrava que 60% da classe média paulistana, replicando tendência nacional, votaria em Lula. Na véspera do segundo turno da eleição de 2006, o mesmo Datafolha divulgava que cerca de 50% dos setores médios paulistanos votariam no candidato do PT. O antipetismo não é e nunca foi intrínseco à classe média brasileira.
O setor da classe média que se expressa, na atual conjuntura, por meio de ideias reacionárias o faz, entre outros motivos, porque percebe os governos petistas como dominados pelo grande capital, o adversário econômico por excelência da pequena burguesia. A fala contra a corrupção colocada no centro do discurso desses estratos médios é, além de uma simplificação exagerada do complexo tema das políticas públicas, uma crítica a governantes, de fato, capturados pelo empresariado. A atitude dos governos petistas de defender os monopólios e abandonar a classe média levou o discurso de setores desse grupo social a expressar-se numa retórica contra o PT, seu passado proletário, as políticas sociais e a esquerda em geral. É a fala de um anticapitalismo de direita (defende o mercado, mas é contra a acumulação, deseja o individualismo, mas é contra a igualdade de oportunidades, etc), que, por também não confiar na oposição, apela cada vez mais para entidades abstratas, com a pátria, em busca de forças políticas descompromissadas com o governo de plantão e o grande capital. É uma situação típica na qual a classe média pode se tornar presa das ideias fascistas. Algo particularmente perigoso num momento em que os movimentos sociais e os sindicatos estão neutralizados pelo direitismo do governo, pois os aludidos estratos dos setores médios tornam-se uma vanguarda reacionária que pode imantar o resto da população. A esquerda precisa, urgentemente, entender os motivos econômicos desta classe social e lhe apresentar um programa alternativo.
Se a esquerda deseja ter clareza sobre como agir diante da ampliação das manifestações organizadas por setores reacionários da classe média, precisa procurar uma explicação científica para o fato e não embarcar na versão apresentada pelo governo federal. É mais fértil procurar entender as bases econômicas, culturais e políticas do reacionarismo do que concebê-lo como um improvável desvio moral simultâneo de milhões de indivíduos. Seria desastroso fundamentar apenas na intuição o discurso e as ações contrários às dimensões ultradireitistas das manifestações ocorridas nos últimos tempos. Para a esquerda, é mais importante tentar compreender os fatos do que promover uma competição para saber qual dos seus analistas ridiculariza melhor o bizarro discurso das passeatas verde-amarelas e cria o mais engenhoso anátema para estigmatizar os setores médios.
É infértil fazer uma análise estanque das ideias e das posições políticas da classe média. Não é sustentável considerar que este grupo social tenha condições objetivas apenas de comportar-se e expressar-se de modo conservador. Como demonstrou Karl Marx, ainda no século XIX, é próprio dos setores médios da sociedade moderna oscilarem entre posições ideológicas e políticas de direita e de esquerda e, inclusive, misturarem essas posições antípodas. Na atual conjuntura brasileira, uma das provas desse movimento pendular é o fato de que um setor numeroso da mesma classe comporta-se de maneira progressista, defende a esquerda e repudia o discurso do tipo proferido por Jair Bolsonaro.
Nos últimos anos, o marketing do governo federal apostou na estigmatização dos setores médios com o objetivo de aproveitar o descontentamento de alguns dos seus estratos com o PT para “provar” que “a tradicional elite brasileira” seria contrária aos “avanços sociais” dos governos Lula e Dilma. Manipulou o sentido da palavra “elite” para que esta abarcasse apenas a classe média e fez desaparecer nessa bruma sociológica a grande burguesia aliada aos petistas. A família com renda de cinco salários mínimos ou mais começou a aparecer na fala governista como a adversária natural dos trabalhadores e a senadora Kátia Abreu, para surpresa do público, passou a ser mostrada como heroína da economia brasileira. Como cereja do bolo dessa sociologia pelo método confuso, possivelmente criada pelo marqueteiro João Santana, enquanto a classe média real se contraía, os governos petistas fantasiavam sobre a existência de uma “nova classe média” formada pelas famílias de trabalhadores com carteira assinada e acesso ao consumo de massa.
Para compreender as últimas manifestações de direita contrárias ao governo Dilma é preciso, igualmente, desconfiar dos motivos alegados pelos próprios setores médios envolvidos, pois um grupo social não é, necessariamente, o que afirma de si mesmo. Para parte da esquerda, é tentador imaginar que uma fatia da classe média está insatisfeita apenas devido a arraigados preconceitos contra os pobres, as minorias étnicas, a população LGBTT, o campesinato e o operariado, entre outros grupos. Entretanto, se observarmos os dados empíricos existentes, é possível perceber que a insatisfação tem outros motivos, a maioria de ordem econômica.
Comecemos pelo que tem sido esquecido pela maioria dos analistas: observemos os dados empíricos sobre a trajetória econômica e demográfica da classe média na Era PT. Entre 2001 e 2013, na Região Metropolitana de São Paulo (RM-SP), palco da maior manifestação do dia 15 de março passado, segundo a PNAD/2013, o número absoluto de famílias de classe média (consideradas como aquelas cuja pessoa de referência da família tinha renda mensal de cinco salários mínimos ou mais) diminuiu 31,57%, enquanto o número absoluto de famílias da classe trabalhadora (consideradas como aquelas com renda mensal inferior a cinco salários mínimos) ampliou-se 57.64%. Se observarmos a variável contabilizando a renda de todas as pessoas do núcleo familiar, a situação melhora para a classe média, entretanto, a sua trajetória passa a ser de crescimento (12,00%), mas muito menor do que o da classe trabalhadora (65,48%). Mesmo nesse caso, os estratos entre 10 e 20 salários mínimos e acima de 20 salários mínimos tiveram encolhimentos absolutos de 23,00% e 38,90%.
A constatação é ainda mais surpreendente quando comparamos esses números com aqueles das mesmas variáveis e dos mesmos parâmetros imediatamente referidos entre os anos de 1991 e 2000. Nesse intervalo de tempo, segundo os censos demográficos do IBGE, o número absoluto de famílias de classe média no Estado de São Paulo (não tivemos acesso a dados da RM-SP para o período) quase dobrou (96,61%) e o de famílias da classe trabalhadora ampliou-se em apenas 19,70%. No país, os números foram, respectivamente, 185,26% e 21,00%. Primeira conclusão: a Era PT estancou o desenvolvimento demográfico da classe média e fez dois dos estratos desse grupo social encolherem.
Se corrigirmos pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Ampliado) o valor nominal da renda média mensal das famílias calculado na PNAD/2013, constataremos que, entre 2001 e 2013, todos os estratos salariais da RM-SP tiveram um ganho real de renda aproximado de 38%. Será que a melhoria da renda das famílias de trabalhadores originou-se em recursos anteriormente de posse dos setores médios? Como, ainda segundo a PNDA/2013, apenas 4,39% dos integrantes da classe média da RM-SP eram, em 2013, empregadores de trabalhadores não-domésticos (nesse número estão inclusos os membros da grande burguesia, pois IBGE não os discrimina) e 7, 07% dos assalariados eram trabalhadores domésticos, a melhoria da renda dos trabalhadores na Era PT não pode ter se originado, a não ser residualmente, de recursos provenientes da classe média.
O aumento da renda dos trabalhadores na Era PT foi determinado por uma significativa ampliação da oferta de empregos formais em um momento de relativa estabilidade monetária. Uma tendência econômica presente em dezenas de países do Sul do planeta na primeira década do século XXI e condicionada pelo deslocamento de grandes massas de capital para a periferia do sistema. Configurou-se como um ganho dos trabalhadores na luta econômica contra o capital, mesmo que as grandes empresas tenham abocanhado a maior parte da riqueza derivada do aumento de produtividade e da ampliação das escalas produtivas.
A classe média não perdeu nada com o avanço do consumo dos trabalhadores, a multiplicação dos empregos e a expansão (mercantilizada) de algumas políticas sociais, como o Bolsa Família e os subsídios para matrículas no sistema de ensino superior. A baixa qualidade da maioria dos cursos universitários e a precariedade da assistência estudantil, entre outras variáveis, fizeram com que expansão da presença dos trabalhadores no ensino superior não lhes tenha garantido efetiva capacidade de competição com os setores médios no mercado de trabalho, representando mais uma ganho simbólico do que uma efetiva qualificação (com exceção das trajetórias individuais particularmente exitosas e motivadas por talento excepcional).
A contração demográfica de estratos da classe média foi determinada por duas variáveis: 1) nos 13 anos considerados (2001-20013), o aumento de 38% na renda real mensal não foi suficiente para cobrir o crescimento das necessidades de consumo impostas pela dinâmica da sociedade a esta classe; e 2) a reestruturação produtiva das empresas privadas e órgãos públicos, no início do século XX, baseada na diminuição dos níveis de chefia e no avanço tecnológico dissolvedor de funções especializadas, diminuiu muito os postos de trabalho para os setores médios. Esses fatores atingiram de modo distinto os trabalhadores, pois suas necessidades ainda eram as básicas e os postos de trabalho que podiam ocupar multiplicaram-se.
A sociedade capitalista é estruturada de tal modo que o nível de consumo imposto socialmente aos indivíduos desenvolve-se numa espiral crescente e avassaladora. O telefone celular e o computador pessoal, por exemplo, inicialmente apenas curiosidades tecnológicas, tornaram-se instrumentos profissionais e sociais incontornáveis. A primeira década do século XX no Brasil foi marcada por um notável acréscimo de novas necessidades sociais para as famílias de classe média, sendo suficiente elencar o crescimento da adesão aos planos de saúde, a inflação das mensalidades escolares, a ampliação dos gastos com equipamentos eletrônicos e o boom do acesso à banda larga. Diante dessa tendência intrínseca ao capitalismo, apenas o aumento correspondente da renda e das oportunidades de trabalho seria capaz de evitar disfuncionalidades e insatisfação social. O choque entre o aumento das necessidades de consumo impostas socialmente e a renda foi, no período considerado, respondido pelas famílias com a renúncia ao consumo e o endividamento, uma combinação politicamente explosiva.
Também nos governos petistas, a classe média tem perdido renda para o grande capital, principalmente por meio de preços de monopólio cobrados por faculdades privadas, bancos, planos de saúde, montadoras de automóvel e outros setores. Parte deste grupo social imputará essas perdas a qualquer governo dominado pelas grandes empresas e tenderá a usar a retórica antigovernista à mão para explicitar sua crítica e propor um governo diferente, via eleição ou impeachment. Se o governo for do PSDB ou outro partido de direita, usará a retórica da esquerda, como o fez na crítica aos governos FHC e Collor. Caso o governo seja petista e o esquerda alternativa ainda não tenha adquirido visibilidade e significativo peso político, usará a retórica da direita e mesmo da extrema direita. Vejamos uma prova empírica desse movimento pendular: poucos dias antes do segundo turno da eleição presidencial de 2002, pesquisa do Instituto Datafolha mostrava que 60% da classe média paulistana, replicando tendência nacional, votaria em Lula. Na véspera do segundo turno da eleição de 2006, o mesmo Datafolha divulgava que cerca de 50% dos setores médios paulistanos votariam no candidato do PT. O antipetismo não é e nunca foi intrínseco à classe média brasileira.
O setor da classe média que se expressa, na atual conjuntura, por meio de ideias reacionárias o faz, entre outros motivos, porque percebe os governos petistas como dominados pelo grande capital, o adversário econômico por excelência da pequena burguesia. A fala contra a corrupção colocada no centro do discurso desses estratos médios é, além de uma simplificação exagerada do complexo tema das políticas públicas, uma crítica a governantes, de fato, capturados pelo empresariado. A atitude dos governos petistas de defender os monopólios e abandonar a classe média levou o discurso de setores desse grupo social a expressar-se numa retórica contra o PT, seu passado proletário, as políticas sociais e a esquerda em geral. É a fala de um anticapitalismo de direita (defende o mercado, mas é contra a acumulação, deseja o individualismo, mas é contra a igualdade de oportunidades, etc), que, por também não confiar na oposição, apela cada vez mais para entidades abstratas, com a pátria, em busca de forças políticas descompromissadas com o governo de plantão e o grande capital. É uma situação típica na qual a classe média pode se tornar presa das ideias fascistas. Algo particularmente perigoso num momento em que os movimentos sociais e os sindicatos estão neutralizados pelo direitismo do governo, pois os aludidos estratos dos setores médios tornam-se uma vanguarda reacionária que pode imantar o resto da população. A esquerda precisa, urgentemente, entender os motivos econômicos desta classe social e lhe apresentar um programa alternativo.
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