27/03/2017

Sobre o mundo hodierno e as vozes falantes

Eu acredito que os escritores conservadores acertam quando dizem que hoje as pessoas estão um pouco sensíveis ou mimadas demais. Veja o caso da educação: se você exigir que um aluno sente numa cadeira, escute e faça sua obrigação, que é estudar, já que ele não faz mais nada além disso, você se torna quase que instantaneamente um autoritário, propugnador do terrível ensino tradicional e um docente que não respeita as fases de desenvolvimento do pobre adolescente, coitado, que não pode se submeter à... disciplina! A moda é "aprender brincando, se divertindo", como se o mundo fosse sempre sobre diversão. Fico eu a pensar em São Jerônimo a transcrever mais de duas mil páginas em aramaico e hebraico, dia após dia, noite após noite, sem dormir, por puro prazer. É gozo em estado puro!

Mas até aí tudo bem. O problema é quando vemos teóricos e pessoas com sofisticação intelectual e maturidade suficiente pra entender o mundo bradando com indignação que, vejam só, Putin é autoritário! Todos aqui sabem que eu não tenho simpatia pelo Putin e nem por autoritarismo. Mas, meus gostos à parte, vamos à realidade e o que ela nos diz, mezzo Machiavelli: governos se legitimam também pela força. E na luta pelo poder, não há muito espaço para amor e flores. O fato é que a cada nova manifestação apoiada pelo Ocidente na Rússia, Putin desce o sarrafo, acusa-os de ser projeto imperialista (esteja correto ou não) e 90% do país o apóia vigorosamente.

É o método mais humanista? É o método mais bonitinho? Claro que não, mas aqui não cabem juízos de valores, mas de resultados -- que é o que vale no mundo do poder, queridos: e funciona. Como funcionou o FBI mapear e coagir líderes do Occupy Wall Street.
Dilma em 2015 foi várias vezes à televisão defender o direito à manifestação, o direito de liberdade de imprensa e tudo o mais -- valores que eu acho muito atraentes, de verdade, e até os defendo como ideal. Mas a prática, o mundo real, mostrou que, apesar disso, ela foi derrubada.

É a vida. Não tão bonita como queremos que seja. E pra mudá-la, é preciso encarar como ela é. E não como gostaríamos que fosse.

SOBRE O AMOR E OS SEUS OBSTÁCULOS. Ou finalmente um post sobre sentimentos

Por Wilson Gomes, doutor em ciência política e especialista em política na mídia e redes sociais.

A esquerda ama "o povo". E sempre e tanto que mesmo em face do maior desencanto simplesmente não pode admitir que o seu amado tenha feito o que comprovadamente fez. Assim, consola-se imaginando que se o fez foi porque forçado (pela mídia, pela elite, pelo flautista de Hamelin), vez que o povo é bom mas o Mal que o ronda, metafísico e abundante, frequentemente o seduz.

Há provas mais do que suficientes de que o povo não ama a esquerda, preferindo outros corpos e outros chamegos, mas a moça não consegue abrir mão das delícias que é sentir-se amada por amante tão desejado, e busca refúgio no autoengano. Afinal, é melhor ser feliz que ser filósofo, como dizem que disse Sócrates.

Chega a haver momentos em que a confiança nos próprios predicados atinge cumes improváveis e a esquerda tem certeza de que ao menor dos seus acenos, ou à menor das suas lúbricas promessas, o povo, fascinado, dobrar-se-á ao seu querer. É quando uns coletivos do Facebook convoca uma greve geral de metade da humanidade e a esquerda de classe suspira a sua certeza de que "os trabalhadores" todos irão se sublevar contra as PECs e os PLs do Fim do Mundo.

Ninguém há de comparecer ao encontro marcado, pois se a esquerda ama o povo ou povo não a ama de volta, ou, ao menos, não a ama "tanto assim". Mas quem se importa? Alguém deve ser culpado por tanto amor não retribuído. Demais disso, é sabido que um amante de verdade negocia mal com a realidade pois o amor é torvelinho, é fogo que arde sem se ver, é... oops acho que entrei numa poesia e saí em outra. Estão vendo o que o amor faz com a gente?

Eu falava de quê mesmo? Ah, sim, a esquerda acha que o povo só não a ama agora, neste momento, mas que um dia, quando descobrir que só ela o ama de verdade, virá todo molinho, olhos doces, se aconchegar no seu colinho. Ah, se não fosse a mídia, esta ordinária, e a política, aquela cachorra, a esquerda teria o povo todinho para si. Já imaginou? Chega dispara o coração.

26/03/2017

Vem pra Rua e MBL acabaram - Por Mara Telles

Ato de hoje teve menor participação
Mara Telles é cientista política e desde 2015 mapeia via grupo de pesquisa manifestações de direita.

O Vem pra Rua e o MBL acabaram. Não precisa ser cientista político para descobrir o óbvio: o Príncipe virou sapo e vai continuar sendo abóbora, ainda se a News viesse a apoiar. A história do homem "Moderado" que quer salvar o país da corrupção - ícone que era a linha dos editoriais na imprensa amiga -, caiu por terra. As coberturas da televisão só funcionam quando existe um mínimo de veracidade na narrativa.

No caso de Dilma, conseguiram colar nela a pecha de corrupta porque efetivamente ela estava cercada de corruptos nos partidos de diversos naipes ideológicos que tinham postos em seu governo, embora fosse ela mesma uma pessoa íntegra. Mas, continuar com o enquadramento de que Temer e seus amigos são íntegros e de que seu governo tem as melhores intenções, não funciona mais. Nem mesmo a estrela do juiz Sérgio Moro brilha como outrora. Ele mesmo cria as arapucas ilegais, ele mesmo se vê preso nelas.

A derrota do eterno Interino na opinião pública é acachapante e se expandiu depois da gradual destruição dos direitos, sobretudo os direitos sociais. Desde a doméstica ao servidor público, passando pelos micro-empresários, é visível a insatisfação, sejam por razões econômicas ou políticas. Os níveis de desemprego aumentam, a situação é de precarização do trabalho, os grupos no governo são acusados cotidianamente de práticas ilegais, o Judiciário politizado perde credibilidade e não há nenhuma boa notícia econômica ou ética próxima de se tornar realidade. O Vem Pra Rua pode até dar uma ajudazinha no marketing dos seus amigos, o MBL pode até ter colunista e articulista pra chamar de seu, mas não passaram de uma parte insignificante de nossa história.

Ninguém vai se lembrar daqui a uns anos, quem era Katiguiri ou outro qualquer. Mas, ninguém vai se esquecer de quem foi Dilma e que aquele que a sucedeu e sucateou o país.

16/01/2017

Sobre questão dos presídios - Por Aline Passos

As revistas Veja, Istoé e Época desta semana dedicaram suas capas aos recentes acontecimentos nas prisões localizadas no norte do país. Existe uma série de questões que podem ser debatidas a partir das matérias, mas por enquanto vou me limitar às que me parecem mais complicadas, seja pelo caráter consensual à esquerda e à direita, seja pela circularidade histórica dos argumentos que faz a positividade da prisão emergir sempre da constatação de seu fracasso.

Em primeiro lugar, aparece a chamada omissão do Estado. Atribui-se a dimensão atual do controle das facções a uma espécie de ausência estatal, precisamente, onde não faz qualquer sentido falar em falta de Estado. Não existe lugar onde o Estado seja mais Estado do que numa prisão. Tanto podemos retomar os fundamentos do contratualismo, quanto a tese weberiana do monopólio do exercício legítimo da violência para debater o problema, mas muito mais eficaz me parece ser o lembrete de que ninguém vai parar numa prisão se não por obra e graça do poder estatal.

Mesmo quando se trata de administração privada de unidade carcerária (voltarei a este ponto em outro post), o controle sobre como, quando, e de que forma se pune é, para lembrar Godwin, a questão fundamental da ciência política, assim como a prisão, por sua vez, tornou-se a forma elementar de punição na modernidade, segundo Foucault. Em ambos os casos, se tem algo que está implicado no debate é a presença inequívoca do Estado. Punir e prender talvez sejam as formas mais essenciais de um Estado Moderno se realizar enquanto tal. Atribuo, aliás, à ignorância de jornalistas, juristas e, pasmem, historiadores, a referência constante ao caráter medieval ou selvagem (sabe-se lá porque alternados como sinônimos) da situação nos presídios brasileiros. A prisão, tal como a conhecemos, é um produto da modernidade, da civilização e do humanismo. Creditar o que lá acontece a qualquer outra forma histórico-política é somente uma forma de afastar de nós mesmos as atrocidades que produzimos, segundo a crença que nos convém.

Os problemas que vão da tal superlotação à corrupção, passando por outras questões de gerenciamento, já não podem ser admitidos como ausência. Trata-se de uma política afirmativa que se define como governamentalização do Estado, ou seja, um arranjo polìtico específico das maneiras pelas quais se produz governo sobre a vida e a morte da população encarcerada, e cujo aspecto menos importante é definir-se pela ação ou omissão em termos gramaticais ou jurídicos, posto que ambas consistem em um fazer, um funcionamento, um modo de se mover estrategicamente.

Em outras palavras, o Estado não é omisso ou fraco quando deixa o governo das prisões ser exercido por grupos que trabalham no campo dos ilegalismos. É exatamente para que estes desonerem as instituições de um fazer que não pode ser anunciado ou defendido enquanto tal pelos devotos do Estado Democrático de Direito - sempre dispostos a afirmar a legitimidade da prisão e propor projetos mirabolantes para reformá-la - que esta delegação acontece.
Em São Paulo, há muito se sabe que o governo das prisões se dá pelo compartilhamento de gestão entre a SAP-SP e o PCC, o que implica dizer que a alternância de poderes entre eles permite que só tenhamos notícias dos horrores perpetrados no sistema prisional quando algum acordo se rompe e anuncia uma nova reacomodação de forças. E é precismente por isso que você e eu dormimos tranquilos todas as noites, sem sermos assombrados por cabeças decapitadas. Alguns de nós, inclusive, pedem novas formas de criminalização, enquanto se mostram comovidos ou indignados com a “barbárie”, que não é nada mais que o fio desencapado das nossas Luzes.

Quando a impresa informa que a empresa administradora do Compaj, em Manaus, notificou o governo do estado sobre a possível ocorrência de rebelião, é preciso entender a comunicação entre os gestores como de fato ela opera: não uma mera troca de ofìcios e pedido de reforço policial, cuja ausência de resposta foi a causa do massacre (vamos lembrar que no Carandiru foi exatamente o contrário...), mas um “cumpra-se” para o extermínio que formalidade nenhuma consegue esconder. Para quê se desgastar quando é possível fazer o serviço que se pretende sem sujar as fardas ou as mãos? Percebam que, depois, não faltou quem dissesse que entre os mortos não havia santo...

Dito isto, vamos ao que mais interessa: os massacres nas prisões, de tempos em tempos, emergem como uma das formas de controle da superlotação e remanejamento de novos contingentes de encarcerados para inauguração de unidades prisionais que já surgem sob as mesmas condições de possibilidade que anunciam a próxima tragédia. Tragédia, aliás, que irá chocar as sensibilidades humanistas menos habituadas a se olharem no espelho. E é por isso que eu começo a escrever o que, provavelmente, será uma série de longos posts, sugerindo um tantinho de honestidade neste debate: não são a tortura e a chacina que nos chocam, é a exposição de suas imagens que atrapalha nosso café da manhã.

15/01/2017

Como e porque Levy e Meirelles quebraram o país

Por José Luis Fevereiro

Quando Dilma Rousseff venceu as eleições em 2014 o Brasil estava ás portas de uma recessão. A política de desonerações tributárias acompanhada da redução do investimento publico na obstinada crença que o setor privado aumentaria seu investimento havia fracassado em um cenário onde a crise internacional tinha provocado forte queda nos preços dos produtos primários de exportação. Ainda não nasceu o empresário que tendo capacidade de produzir 10 mil caixas de parafusos por dia e que vendendo apenas 7, se disponha a ampliar a sua capacidade de produção apenas porque o governo baixou seus impostos. Aumentar os investimentos públicos e rever as desonerações eram o caminho óbvio para suavizar a recessão e retomar o crescimento econômico. Dilma optou por colocar Joaquim Levy á frente do Ministério da Fazenda e fazer um drástico corte de gastos públicos aprofundando a recessão.


O senso comum tão na moda no debate econômico no Brasil diz que se uma família ganha 3000 e gasta 3500 ela tem que cortar despesas. Isso vale para uma família, uma empresa, um município e um estado. Mas não vale para a União porque esta , ao contrario das famílias, dos estados ou dos municípios, emite a moeda na qual é denominada a sua divida e regula a taxa de juros pela qual esta é remunerada. Quando falamos da economia como um todo, o gasto de um agente econômico é a receita do outro. Quando todos cortam gastos ao mesmo tempo, todos têm queda na sua receita. Em geral situações de déficit se agravam com essas medidas. Ao aprofundar a recessão em 2015, Levy provocou queda nas receitas de todos os agentes econômicos: famílias, empresas, municípios e estados, bem como da própria União.

Diz-se que quando a maré baixa é que se sabe quem estava tomando banho nu. Os primeiros estados a quebrar, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, tinham a sua situação fiscal já comprometida por razões distintas: o Rio Grande desde a década de 90 pelos efeitos da lei Kandir que desonerou de ICMS as exportações agrícolas de forte peso no estado; o Rio de Janeiro porque alavancado nas receitas de petróleo tinha , desde os governos Garotinho e Rosinha passando por Cabral, praticado uma politica irresponsável e sem critérios claros de desonerações tributárias. Mas na sequencia destes estados, outros estão entrando em crise e grande parte dos municípios também. É difícil resistir a quedas de arrecadação fiscal da ordem de 2 dígitos.

Com Meireles a mesma política prossegue, levando a recessão em 2 anos para perto dos 8%. Uma queda do PIB de 8% provoca em geral uma queda da arrecadação tributária maior que os 8% porque empresas em crise se tiverem que optar por pagar fornecedores , salários e impostos vão priorizar os 2 primeiros porque são essenciais á continuidade da sua operação. A inadimplência tributaria cresce aprofundando a crise fiscal. A receita de Meirelles para esta crise é a mesma; corte de gastos. As consequências também são as mesmas, queda mais acentuada ainda nas arrecadações tributárias e aprofundamento da crise.

As estas alturas você está se perguntando se eles são idiotas. Alguns, os que acreditam naquilo que falam, certamente. Mas outros sabem exatamente o que estão fazendo. Recomendo a leitura dos artigos de Delfim Neto no Valor Econômico e na Carta Capital desta semana. Explicitamente Delfim defende as contra reformas de Temer dizendo que elas já eram necessárias desde o governo Sarney nos anos 80. A crise lhes deu a oportunidade. O desmonte da Constituíção de 88, da seguridade social e da CLT bem como avançar com a privatização do estado são os objetivos. Não é por acaso que privatizar a Cedae, a Cemig e o Banrisul são “contrapartidas” exigidas por Meirelles para o auxilio federal ao Rio , Rio Grande e Minas. A PEC 55 que limita os gastos federais por 20 anos, a reforma previdenciária, as mudanças na CLT, nada disso tramitaria pacificamente sem uma crise econômica de enormes proporções que de um lado desse discurso para disputar o senso comum e de outro quebrasse a resistência das partes envolvidas.

A chantagem contra os estados é explicita. Funcionários públicos sem salários desde novembro, levados ao desespero, acabarão por opor menor resistência ás contrapartidas exigidas pelo governo federal. O desmonte da seguridade social empurrando a classe média para os planos privados e precarizando as aposentadorias e pensões das faixas de menor renda também enfrentarão menor resistência no ambiente de sinistrose que a crise provoca. Essa é a logica em vigor, a crise é o meio a ser perseguido para atingir o objetivo estratégico que é a reforma conservadora do estado.
Na ausência de terremotos, tsunamis, peste negra ou bombardeios da OTAN, a crise é o desastre “natural” necessário para o desmonte do pouco que temos de Estado de bem-estar social.

19/07/2016

There is no alternative but the people

The Turkey Communist Party is calling on our people to organize in the Party's ranks against the enemies of the people and humanity. The liberation is in our own hands.

We do not have all the details of what happened during the coup attempt that took place in Turkey in the hours between July 15 and July 16. However, we know very well that plans that are supported by foreign forces, that do not take its power from the working class can not defeat AKP darkness and solve Turkey's problems.

The events of today reminded us the following reality once again: Either the people of Turkey will organize and get rid of AKP or AKP's reactionary policies will intensify, repression will increase, massacres, the plunder and theft will continue.

The only power that can overthrow AKP is the people's power, there is no alternative to it.
AKP is responsible for all that took place tonight. All the factors that led to the current situation and the conditions are the product of AKP's rule and the domestic and foreign bosses that support AKP.
However, the fact that the main responsible party is AKP does not mean that the coup attempt was one that was orchestrated by Erdogan himself in order to achieve his objectives such as paving the path to an executive presidency or clearing the obstacles facing the new constitution.

The tension and the rivalries between different groups within the state and the armed forces that have been known to exist for a while have turned into armed conflict. While the tension between these forces is real, it is a lie that any of the sides in this conflict represent the interests of the people. Following this, searching for the solution against AKP's rule in a military coup is as wrong as lending any support to AKP under the guise of taking a position against military coups for whatever reason. The last thing that should be done in the name of supporting freedom and human rights in Turkey is to lend support to AKP which has proven over and over that it is an enemy of humanity.

While they have not orchestrated this coup, Erdoğan and AKP will make an effort to use the resulting conditions and the support they received as means to increase their legitimacy. Our people should be on the alert against steps that AKP will be certain to take in the days to come. Raising the struggle against AKP and its darkness is the only way to stop this failed coup attempt resulting in AKP's solidifying its rule and turning into a tool for transforming AKP's unstable Turkey into stability. The fact that all mosques in Turkey have broadcasted continuous Erdoğan propaganda the whole night is a concrete indication of the urgency of our task at hand.

The Communist Party is calling on our people to organize in the Party's ranks against the enemies of the people and humanity.

The liberation is in our own hands.

Communist Party, Turkey

Não há alternativa exceto o povo!

Declaração do Partido Comunista (da Turquia), sobre a tentativa de golpe militar:

O Partido Comunista conclama o povo a se organizar nas fileiras do partido contra os inimigos do povo e da Humanidade. A libertação está em nossas próprias mãos.

Nós não temos todos os detalhes do que ocorreu durante a tentativa de golpe na Turquia na noite entre os dias 15 e 16 de julho. Contudo, nós sabemos muito bem que estes planos são apoiados por forças externas, que não retiram seu poder da classe trabalhadora e não podem derrotar a escuridão do AKP(1) e resolver os problemas da Turquia.

Os eventos atuais nos relembram mais uma vez a seguinte realidade: ou o povo turco se organiza e se livra do AKP, ou as políticas reacionárias do AKP se intensificarão, bem como a repressão crescerá, e os massacres, a pilhagem e o roubo continuarão.

O único poder que pode derrubar o AKP é o poder popular, não há alternativa. O AKP é o responsável por tudo o que ocorreu esta noite. Todos os fatores e condições que levaram à situação atual são produtos do governo do AKP e os chefes nacionais e estrangeiros que apóiam o AKP.

Contudo, o fato de que o principal responsável seja o AKP não significa que a tentativa de golpe foi orquestrada pelo próprio Erdogan com o fim de atingir seus objetivos, tais como pavimentar o caminho para um executivo presidencial ou retirar os obstáculos enfrentados pela nova constituição.

A tensão e as rivalidades entre os diferentes grupos dentro do Estado e as forças armadas, conhecidas há algum tempo, se converteram em conflito armado. Embora a tensão entre estas forças seja real, é uma mentira que qualquer um dos lados deste conflito represente os interesses populares. Por isso, procurar por uma solução contra o governo do AKP num golpe militar é tão equivocado quanto prestar qualquer apoio ao AKP sob o disfarce de se opor a golpes militares por qualquer motivo. A última coisa que deveria ser feita em nome da defesa da liberdade e dos direitos humanos na Turquia é prestar apoio ao AKP, que já provou várias vezes ser um inimigo da Humanidade.

Embora não tenham orquestrado o golpe de Estado, Erdogan e o AKP se esforçarão para usar as condições decorrentes e o apoio que receberam como instrumentos para aumentar a sua legitimidade. Nosso povo deve estar alerta contra os passos que certamente tomará nos próximos dias o AKP. Aumentando a luta contra o AKP e sua escuridão é o único caminho para impedir a solidificação do poder do AKP como resultado da tentativa de golpe fracassada, e a sua conversão num instrumento para a transformação da instável Turquia do AKP em estabilidade. O fato de que todas as mesquitas na Turquia transmitiram continuamente propaganda de Erdogan, durante toda a noite, é uma indicação concreta da urgência das tarefas em nossas mãos.

O Partido Comunista conclama o povo a se organizar nas fileiras do partido contra os inimigos do povo e da Humanidade.

A libertação está em nossas próprias mãos.

Partido Comunista, Turquia.

Como assim escola sem ideologia?

POR MARCELO RUBENS PAIVA

Por uma escola popular e plural
A escola sem um professor de história de esquerda é como uma escola sem pátio, sem recreio, sem livros, sem lanchonete, sem ideias. É como um professor de educação física sem uma quadra de esportes, ou uma quadra sem redes, ou crianças sem bola. O professor de história tem que ser de esquerda. E barbudo. Tem que contestar os regimes, o sistema, sugerir o novo, o diferente. Tem que expor injustiças sociais, procurar a indignação dos seus alunos, extrair a bondade humana, o altruísmo. Como abordar o absolutismo, a escravidão, o colonialismo, a Revolução Industrial, os levantes operários do começo do século passado, Hitler e Mussolini, as Grandes Guerras, a Guerra Fria, o liberalismo econômico, sem a leitura da luta de classes, uma visão da esquerda?

A minha do colegial era a Zilda, inesquecível, que dava textos de Max Webber, do mundo segmentado do trabalho. Ela era sarcástica com a disparidade econômica e a concentração de renda do Brasil. Das quais nossas famílias, da elite paulistana, eram produtoras.
Em seguida veio o professor Beno (Benauro). Foi preso e torturado pelo DOI-Codi, na leva de repressão ao PCB de 1975, que matou Herzog e Manoel Fiel Filho. Benauro era do Partidão, como nosso professor Faro (José Salvador), também preso no colégio. Eu tinha 16 anos quando os vimos pelas janelas da escola, escoltados por agentes.

Outro professor, Luiz Roncari, de português, também fora preso. Não sei se era do PCB. Tinha um tique nos olhos. O chamávamos de Luiz Pisca-Pisca. Diziam que era sequela da tortura. Acho que era apenas um tique nervoso. Dava aulas sentado em cima da mesa. Um ato revolucionário.
Era muito bom ter professores ativistas e revolucionários me educando. Era libertador.
Não tem como fugir. O professor legal é o de esquerda, como o de biologia precisa ser divertido, darwinista e doidão, para manter sua turma ligada e ajudar a traçar um organograma genético da nossa família. A base do seu pensamento tem de ser a teoria da evolução. Ou vai dizer que Adão e Eva nos fizeram?

O de química precisa encontrar referências nos elementos que temos em casa, provar que nossa cozinha é a extensão do seu laboratório, sugerir fazer dos temperos, experiências.
O professor de física precisa explicar Newton e Einstein, o chuveiro elétrico e a teoria da relatividade e gravitacional, calcular nossas viagens de carro, trem e foguete, mostrar a insignificância humana diante do colossal universo, mostrar imagens do Hubble, buracos negros, supernovas, a relação energia e massa, o tempo curvo. Nosso professor de física tem que ser fã de Jornadas nas Estrelas. Precisa indicar como autores obrigatório Arthur Clarke, Philip Dick, George Orwell. E dar os primeiros axiomas da mecânica quântica.

O professor de filosofia precisa ensinar Platão, Sócrates e Aristóteles, ao estilo socrático, caminhando até o pátio, instalando-se debaixo de uma árvore, sem deixar de passar pela poesia de Heráclito, a teoria de tudo de Parmênides, a dialética de Zenão. Pula para Hegel e Kant, atravessa o niilismo de Nietzsche e chega na vida sem sentido dos existencialistas. Deixa Marx e Engels para o professor de história barbudo, de sandália, desleixado e apaixonante.

O professor de português precisa ser um poeta delirante, louco, que declama em grego e latim, Rimbaud e Joyce, Shakespeare e Cummings, que procura transmitir a emoção das palavras, o jogo do inconsciente com a leitura, a busca pela razão de ser, os conflitos humanos, que fala de alegria e dor, de morte e prazer, de beleza e sombra, de invenção-fingimento.

O de geografia precisa falar de rios, penínsulas, lagos, mares, oceanos, polos, degelo, picos, trópicos, aquecimento, Equador, florestas, chuvas, tornados, furacões, terremotos, vulcões, ilhas, continentes, mas também de terras indígenas, garimpo ilegal, posseiros, imigração, geopolítica, fronteiras desenhadas pelos colonialistas, diferenças entre xiitas e sunitas, mostrar rotas de transação de mercadorias e comerciais, guerra pelo ouro, pelo diamante, pelo petróleo, seca, fome, campos férteis, civilização.

A missão deles é criar reflexões, comparações, provar contradições. Provocar. Espalhar as cartas de diferentes naipes ideológicos. Buscar pontos de vista.
O paradoxo do movimento Escola sem Partido está na justificativa e seu programa: “Diante dessa realidade – conhecida por experiência direta de todos os que passaram pelo sistema de ensino nos últimos 20 ou 30 anos –, entendemos que é necessário e urgente adotar medidas eficazes para prevenir a prática da doutrinação política e ideológica nas escolas, e a usurpação do direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.”
Mas como nasceriam as convicções dos pais que se criariam num mundo de escolas sem ideologia? E que doutrina defenderiam gerações futuras?

A escola não cria o filho, dá instrumentos. O papel dela é mostrar os pensamentos discordantes que existem entre nós. O argumento de escola sem ideologia é uma anomalia de Estado Nação.
Uma escola precisa acompanhar os avanços teóricos mundiais, o futuro, melhorar, o que deve ser reformulado. Um professor conservador proporia manter as coisas como estão. Não sairíamos nunca, então, das cavernas.

18/07/2016

Uma crítica aos críticos da URSS

Seria possível substituirmos nossa luta pelo socialismo por uma na busca de um Estado apenas mais provedor mantendo assim o capitalismo? Essa é uma questão que assola a esquerda e que para muitos depois dos anos 1960 -- hoje eles todos em processo de degeneração e falência -- a resposta foi sim. Mas cabem algumas reflexões.

Uma delas é se haveria Estado de Bem-Estar Social em alguns países da Europa não fosse o capitalismo americano e europeu fincado na exploração do então e dito terceiro mundo. Antes de mais nada é preciso dizer que o Welfare State só foi possível de ser conquistado porque havia a ameaça do perigo vermelho, que desde muito antes na URSS possibilitava aos trabalhadores uma condição de vida e dignidade que no lado do Ocidente capitalista não havia. E só houve Estado de Bem-Estar Social na Europa e uma boa vida nos EUA para a classe trabalhadora porque havia ditaduras financiadas nos trópicos e um histórico de pilhamento do povo da América Latina e África pelos capitalistas das potências setentrionais.

Este fato inconteste muitas vezes ignorado é apenas uma das faces de não entender o capitalismo como uma questão global que precisa ser entendido na sua totalidade; analisá-lo a partir de frações é a melhor forma de não entendê-lo. Ou de se fazer o entendimento que bem se queira.

Dizer que a URSS não era democrática, ou verdadeiramente democrática, nos impõe uma questão: quem era uma verdadeira democracia, então? Os EUA impedindo que negros e mulheres tivessem os mesmos direitos que a parcela masculina branca? O papo um tanto descolado da realidade de que apontar os erros de um não converge em aceitar a realidade do outro nega um fato dado e concreto: que foi esse discurso e ainda o é que demoniza a experiência soviética e que reafirma o capitalismo e a democracia burgo-liberal como inquestionáveis e o objetivo único a seguir. A militância petista gritando por democracia não como um método tático, mas como fim estratégico não me deixa mentir. Afinal, democracia aqui é entendida como mero direito à liberdade de expressão e voto formal. Direito à educação, dignidade, moradia, saúde, lazer e todo o resto não são incluídos no conceito.

Cabe perguntar: que democracia temos, com saúde e educação precarizadas para a maior parte da população, lazer privatizado, violência urbana e uma população enorme à margem? Ah, mas você pode votar e escrever besteiras na internet, dirá alguém antes de bradar viva a liberdade!

É, viva. Viva a democracia burgo-liberal e o direito à liberdade de expressão (muito bem cerceados quando incomodam o status quo, diga-se.)

E o discurso de que a população do Leste europeu estava saturada do socialismo é outra balela enfiada goela abaixo pelos meios de comunicação burgueses. Houve um plebiscito em 1991 e 76% da população votou pela continuidade da União Soviética. Ou seja, havia insatisfação, e isso era óbvio e não há uma única experiência de qualquer regime que seja que não tenha insatisfeitos, mas é inegável que a base de apoio era bastante maior do que a que se encontra hoje nos... EUA! Em 2008 fez-se uma pesquisa perguntando o que as pessoas preferiam, se socialismo ou capitalismo. Apenas 51% disseram preferir o sistema econômico atual. Isso nos EUA... Imagine no Quênia ou no Haiti...

Continuando, o fim da URSS e do socialismo nada mais foi que uma decisão da burocracia de Estado e dos emergentes capitalistas de lá com apoio das oligarquias financeiras do Ocidente. Que a URSS tinha problemas, sem dúvida os tinha, não os tivesse o povo teria ido defendê-la, não se posicionado de modo amorfo, mas passam esses problemas muito distantes dessa linguagem repleta de acusações do lado dos que venceram. E os que perderam com o fim da URSS foram indiscutivelmente os trabalhadores de todo o mundo.

Ou, para responder a questão que dá início a esse texto: em que lugar do mundo a social-democracia sem o medo do perigo vermelho se manteve e não deu lugar a um sedento neoliberalismo privatizante e fomentador de exponenciais desigualdades sociais?

Modismos na esquerda e a crítica a ser feita.

Por Felipe Henrique Gonçalves*



"Esquerdismo rosa", pós-moderno, tipicamente pequeno burguês
A história do pensamento da esquerda é marcada por “modas”, ciclos de forte influência de uma determinada maneira de interpretar a realidade e de perspectivar o futuro. Ainda que em alguns campos do conhecimento tais “modas” tenham contribuído para o entendimento de alguns fenômenos, a superação delas tem significado um balanço crítico do quão nocivo certas interpretações foram para um pensamento que se reivindica transformador. Afirmar isso em nada pode significar a defesa de uma ortodoxia dogmática, um certo purismo, mas atentar para o fato que de determinados ecletismos depuram a necessidade de construção de um conhecimento científico, crítico e transformador. Sem a pretensão de possuir um rigor temporal, aponto algumas “modas” que podemos identificar no século XX-XXI:

Anos 30/40: o marxismo vulgar produzido pelo stalinismo e difundido pelos intelectuais da III Internacional.

50/60: o estruturalismo francês, onde encontra a sua expressão marxista em Louis Althusser.

70/80: o liberalismo/democratismo de Hannah Arendt, Noberto Bobbio e Junger Habermas.

90 - ?: pós-modernos/pós-estruturalistas influenciados pela filosofia francesa pós-1968 de Foucault, Derrida e Deleuze. Estes estão presentes principalmente nos denominados movimentos identitários, das minorias políticas e naqueles que se pretendem construir uma nova esquerda, uma esquerda diferente.

A pergunta que não quer calar: quem dará a cara à tapa com o risco de sofrer um linchamento virtual para fazer a crítica necessária à “moda” pós-moderna?

17/05/2016

"Todos Pela Educação": o think tank privatista no comando do MEC

Por Gustavo Gindre
Este é o logotipo do think tank privatista que tem banqueiros e grandes capitalistas por trás.


Um dos fatos que estão passando batido nesse (des)governo Temer é a formação da equipe do MEC, onde Mendonça Filho funcionará apenas como um testa de ferro.

A equipe começará de verdade na nova secretária-executiva: Maria Helena Guimarães de Castro, braço direito do finado ex-ministro Paulo Renato. Junto com ela começa a ser montada uma equipe ligada a um think tank chamado "Todos pela Educação".

Por detrás do TPE (Todos pela Educação) estão Itaú, Fundação Roberto Marinho, Fundação Victor Civita, Fundação Bradesco e outros.

É esse pessoal que a partir de agora dará as cartas na educação pública brasileira. É o pessoal das PPPs (Parcerias Público-Privadas) , das OSs (Organizações Sociais) e de um forte programa privatista na educação.

PS: infelizmente, os governos petistas sempre tiveram uma relação dúbia com esses setores, sem aderir, mas também sem rechaçar totalmente.

11/05/2016

Humor: porque em tempos de cólera rir é preciso


Dias difíceis virão

Por Gustavo Gindre
Hoje é um dia triste.

Não pelo fim melancólico desse governo lamentável sob qualquer aspecto.

Mas pela forma como ele se encerra (através de um "golpe por vias institucionais") e pela perspectiva de futuro, com retrocessos nos direitos sociais e uma crescente repressão travestida de democracia.

Viveremos as consequências de todo esse processo (de um governo que capitulou a uma direita
golpista que chega ao poder) por muitos e muitos anos.

Dias difíceis virão.

Evitar discurso de ódio e dialogar. E ouvir.

Por Felipe Henrique Gonçalves:
As esquerdas precisam a todo custo evitar o discurso do ódio. Na ânsia de combater o fascismo que cresce, muitos de nós estamos ouvindo menos e catequisando muito mais. O discurso do ódio deve ser monopólio exclusivo da direita. À nós cabe dialogar e “disputar” na argumentação esses que estão perdidos depois da besteira que fizeram ao ser massa de manobra para o golpe branco.

Xingar todos e tudo de fascismo é preguiça, pouco esclarece e não educa. A nossa propaganda ideológica deve ser paciente e dialógica. Se diferenciar no programa e na prática da tragédia do petismo se faz necessário, caso contrário, seremos engolidos pela “onda conservadora”. Não precisamos e não adianta fazer malabarismos teóricos. É a tão necessária política de base que precisamos fazer em curto e longo prazo. Cada um de nós precisa assumir para si a militância de conquistar corações e mentes em nosso cotidiano; da cozinha e da sala de jantar até os locais de estudos e trabalho.

Não temos tempo para a ressaca da derrota. Construir a unidade na luta para resistir aos ataques que virão e se colocar como uma esquerda que consegue viver e ser propositiva na diversidade. Não vai ter arrego, vai ter luta!

Um golpe dentro da ditadura do capital.


Hoje é um dia absolutamente histórico: é o dia que se conclui parte importante de um golpe branco em uma presidente no Brasil e fecha-se uma onda de desarranjos estruturais dos aparelhos constituídos do Estado burguês. E essa primeira onda de desarranjo mata a tentativa mais equivocada e passiva de um governo de esquerda, que é um governo conciliador que vende até a alma para se manter no poder (e não, não é um desvio de caráter, fruto de governantes cínicos; mas sim a única forma de participação possível de um grupo de esquerda no executivo dentro de uma democracia burguesa, uma forma de ditadura do capital, em tempos de crise econômica).

Morre a fase mais gloriosa do PT, morre o lulismo, morre um período de um governo de frente popular no Estado, mas também morre o engodo do republicanismo e da legitimidade das instituições burguesas conferidas por um contrato social que foi rasgado de maneira circense. O que virá é incerto, mas dá pra cravar que Judiciário, Executivo, Imprensa e todos os grandes aparelhos burgueses perderam de uma vez por todas o resto de credibilidade que tinham ante parte da população. E essa é uma perda definitiva e sem volta.

Para pisotear o tipo de reformismo mais frágil, a nossa burguesia, usando-se de setores médios insatisfeitos, vendeu a sua alma. E o preço a pagar será alto. Resta-nos, enquanto classe trabalhadora, nos organizarmos em partidos revolucionários para que o mais breve possível possamos a eles entregar toda a fatura de todas as misérias das quais são os grandes e únicos autores.

03/05/2016

Para além do coxinha versus petralha: entendendo o antipetismo

Por Golbery Lessa - Membro do Comitê Central do PCB


Se a esquerda deseja ter clareza sobre como agir diante da ampliação das manifestações organizadas por setores reacionários da classe média, precisa procurar uma explicação científica para o fato e não embarcar na versão apresentada pelo governo federal. É mais fértil procurar entender as bases econômicas, culturais e políticas do reacionarismo do que concebê-lo como um improvável desvio moral simultâneo de milhões de indivíduos. Seria desastroso fundamentar apenas na intuição o discurso e as ações contrários às dimensões ultradireitistas das manifestações ocorridas nos últimos tempos. Para a esquerda, é mais importante tentar compreender os fatos do que promover uma competição para saber qual dos seus analistas ridiculariza melhor o bizarro discurso das passeatas verde-amarelas e cria o mais engenhoso anátema para estigmatizar os setores médios.

É infértil fazer uma análise estanque das ideias e das posições políticas da classe média. Não é sustentável considerar que este grupo social tenha condições objetivas apenas de comportar-se e expressar-se de modo conservador. Como demonstrou Karl Marx, ainda no século XIX, é próprio dos setores médios da sociedade moderna oscilarem entre posições ideológicas e políticas de direita e de esquerda e, inclusive, misturarem essas posições antípodas. Na atual conjuntura brasileira, uma das provas desse movimento pendular é o fato de que um setor numeroso da mesma classe comporta-se de maneira progressista, defende a esquerda e repudia o discurso do tipo proferido por Jair Bolsonaro.

Nos últimos anos, o marketing do governo federal apostou na estigmatização dos setores médios com o objetivo de aproveitar o descontentamento de alguns dos seus estratos com o PT para “provar” que “a tradicional elite brasileira” seria contrária aos “avanços sociais” dos governos Lula e Dilma. Manipulou o sentido da palavra “elite” para que esta abarcasse apenas a classe média e fez desaparecer nessa bruma sociológica a grande burguesia aliada aos petistas. A família com renda de cinco salários mínimos ou mais começou a aparecer na fala governista como a adversária natural dos trabalhadores e a senadora Kátia Abreu, para surpresa do público, passou a ser mostrada como heroína da economia brasileira. Como cereja do bolo dessa sociologia pelo método confuso, possivelmente criada pelo marqueteiro João Santana, enquanto a classe média real se contraía, os governos petistas fantasiavam sobre a existência de uma “nova classe média” formada pelas famílias de trabalhadores com carteira assinada e acesso ao consumo de massa.

Para compreender as últimas manifestações de direita contrárias ao governo Dilma é preciso, igualmente, desconfiar dos motivos alegados pelos próprios setores médios envolvidos, pois um grupo social não é, necessariamente, o que afirma de si mesmo. Para parte da esquerda, é tentador imaginar que uma fatia da classe média está insatisfeita apenas devido a arraigados preconceitos contra os pobres, as minorias étnicas, a população LGBTT, o campesinato e o operariado, entre outros grupos. Entretanto, se observarmos os dados empíricos existentes, é possível perceber que a insatisfação tem outros motivos, a maioria de ordem econômica.

Comecemos pelo que tem sido esquecido pela maioria dos analistas: observemos os dados empíricos sobre a trajetória econômica e demográfica da classe média na Era PT. Entre 2001 e 2013, na Região Metropolitana de São Paulo (RM-SP), palco da maior manifestação do dia 15 de março passado, segundo a PNAD/2013, o número absoluto de famílias de classe média (consideradas como aquelas cuja pessoa de referência da família tinha renda mensal de cinco salários mínimos ou mais) diminuiu 31,57%, enquanto o número absoluto de famílias da classe trabalhadora (consideradas como aquelas com renda mensal inferior a cinco salários mínimos) ampliou-se 57.64%. Se observarmos a variável contabilizando a renda de todas as pessoas do núcleo familiar, a situação melhora para a classe média, entretanto, a sua trajetória passa a ser de crescimento (12,00%), mas muito menor do que o da classe trabalhadora (65,48%). Mesmo nesse caso, os estratos entre 10 e 20 salários mínimos e acima de 20 salários mínimos tiveram encolhimentos absolutos de 23,00% e 38,90%.

A constatação é ainda mais surpreendente quando comparamos esses números com aqueles das mesmas variáveis e dos mesmos parâmetros imediatamente referidos entre os anos de 1991 e 2000. Nesse intervalo de tempo, segundo os censos demográficos do IBGE, o número absoluto de famílias de classe média no Estado de São Paulo (não tivemos acesso a dados da RM-SP para o período) quase dobrou (96,61%) e o de famílias da classe trabalhadora ampliou-se em apenas 19,70%. No país, os números foram, respectivamente, 185,26% e 21,00%. Primeira conclusão: a Era PT estancou o desenvolvimento demográfico da classe média e fez dois dos estratos desse grupo social encolherem.

Se corrigirmos pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Ampliado) o valor nominal da renda média mensal das famílias calculado na PNAD/2013, constataremos que, entre 2001 e 2013, todos os estratos salariais da RM-SP tiveram um ganho real de renda aproximado de 38%. Será que a melhoria da renda das famílias de trabalhadores originou-se em recursos anteriormente de posse dos setores médios? Como, ainda segundo a PNDA/2013, apenas 4,39% dos integrantes da classe média da RM-SP eram, em 2013, empregadores de trabalhadores não-domésticos (nesse número estão inclusos os membros da grande burguesia, pois IBGE não os discrimina) e 7, 07% dos assalariados eram trabalhadores domésticos, a melhoria da renda dos trabalhadores na Era PT não pode ter se originado, a não ser residualmente, de recursos provenientes da classe média.

O aumento da renda dos trabalhadores na Era PT foi determinado por uma significativa ampliação da oferta de empregos formais em um momento de relativa estabilidade monetária. Uma tendência econômica presente em dezenas de países do Sul do planeta na primeira década do século XXI e condicionada pelo deslocamento de grandes massas de capital para a periferia do sistema. Configurou-se como um ganho dos trabalhadores na luta econômica contra o capital, mesmo que as grandes empresas tenham abocanhado a maior parte da riqueza derivada do aumento de produtividade e da ampliação das escalas produtivas.

A classe média não perdeu nada com o avanço do consumo dos trabalhadores, a multiplicação dos empregos e a expansão (mercantilizada) de algumas políticas sociais, como o Bolsa Família e os subsídios para matrículas no sistema de ensino superior. A baixa qualidade da maioria dos cursos universitários e a precariedade da assistência estudantil, entre outras variáveis, fizeram com que expansão da presença dos trabalhadores no ensino superior não lhes tenha garantido efetiva capacidade de competição com os setores médios no mercado de trabalho, representando mais uma ganho simbólico do que uma efetiva qualificação (com exceção das trajetórias individuais particularmente exitosas e motivadas por talento excepcional).

A contração demográfica de estratos da classe média foi determinada por duas variáveis: 1) nos 13 anos considerados (2001-20013), o aumento de 38% na renda real mensal não foi suficiente para cobrir o crescimento das necessidades de consumo impostas pela dinâmica da sociedade a esta classe; e 2) a reestruturação produtiva das empresas privadas e órgãos públicos, no início do século XX, baseada na diminuição dos níveis de chefia e no avanço tecnológico dissolvedor de funções especializadas, diminuiu muito os postos de trabalho para os setores médios. Esses fatores atingiram de modo distinto os trabalhadores, pois suas necessidades ainda eram as básicas e os postos de trabalho que podiam ocupar multiplicaram-se.

A sociedade capitalista é estruturada de tal modo que o nível de consumo imposto socialmente aos indivíduos desenvolve-se numa espiral crescente e avassaladora. O telefone celular e o computador pessoal, por exemplo, inicialmente apenas curiosidades tecnológicas, tornaram-se instrumentos profissionais e sociais incontornáveis. A primeira década do século XX no Brasil foi marcada por um notável acréscimo de novas necessidades sociais para as famílias de classe média, sendo suficiente elencar o crescimento da adesão aos planos de saúde, a inflação das mensalidades escolares, a ampliação dos gastos com equipamentos eletrônicos e o boom do acesso à banda larga. Diante dessa tendência intrínseca ao capitalismo, apenas o aumento correspondente da renda e das oportunidades de trabalho seria capaz de evitar disfuncionalidades e insatisfação social. O choque entre o aumento das necessidades de consumo impostas socialmente e a renda foi, no período considerado, respondido pelas famílias com a renúncia ao consumo e o endividamento, uma combinação politicamente explosiva.

Também nos governos petistas, a classe média tem perdido renda para o grande capital, principalmente por meio de preços de monopólio cobrados por faculdades privadas, bancos, planos de saúde, montadoras de automóvel e outros setores. Parte deste grupo social imputará essas perdas a qualquer governo dominado pelas grandes empresas e tenderá a usar a retórica antigovernista à mão para explicitar sua crítica e propor um governo diferente, via eleição ou impeachment. Se o governo for do PSDB ou outro partido de direita, usará a retórica da esquerda, como o fez na crítica aos governos FHC e Collor. Caso o governo seja petista e o esquerda alternativa ainda não tenha adquirido visibilidade e significativo peso político, usará a retórica da direita e mesmo da extrema direita. Vejamos uma prova empírica desse movimento pendular: poucos dias antes do segundo turno da eleição presidencial de 2002, pesquisa do Instituto Datafolha mostrava que 60% da classe média paulistana, replicando tendência nacional, votaria em Lula. Na véspera do segundo turno da eleição de 2006, o mesmo Datafolha divulgava que cerca de 50% dos setores médios paulistanos votariam no candidato do PT. O antipetismo não é e nunca foi intrínseco à classe média brasileira.

O setor da classe média que se expressa, na atual conjuntura, por meio de ideias reacionárias o faz, entre outros motivos, porque percebe os governos petistas como dominados pelo grande capital, o adversário econômico por excelência da pequena burguesia. A fala contra a corrupção colocada no centro do discurso desses estratos médios é, além de uma simplificação exagerada do complexo tema das políticas públicas, uma crítica a governantes, de fato, capturados pelo empresariado. A atitude dos governos petistas de defender os monopólios e abandonar a classe média levou o discurso de setores desse grupo social a expressar-se numa retórica contra o PT, seu passado proletário, as políticas sociais e a esquerda em geral. É a fala de um anticapitalismo de direita (defende o mercado, mas é contra a acumulação, deseja o individualismo, mas é contra a igualdade de oportunidades, etc), que, por também não confiar na oposição, apela cada vez mais para entidades abstratas, com a pátria, em busca de forças políticas descompromissadas com o governo de plantão e o grande capital. É uma situação típica na qual a classe média pode se tornar presa das ideias fascistas. Algo particularmente perigoso num momento em que os movimentos sociais e os sindicatos estão neutralizados pelo direitismo do governo, pois os aludidos estratos dos setores médios tornam-se uma vanguarda reacionária que pode imantar o resto da população. A esquerda precisa, urgentemente, entender os motivos econômicos desta classe social e lhe apresentar um programa alternativo.

A crise e a saída para a classe trabalhadora

A situação política e econômica é preocupante. Ainda que grave, a crise é também uma oportunidade para a burguesia monopolista realizar contrarreformas que em outros momentos seriam mais difíceis. A privatização dos serviços públicos e a retirada de direitos trabalhistas são demandas já colocadas pelo empresariado brasileiro para o próximo período, independentemente do resultado do processo de impeachment.

Essa agenda já vinha sendo atendida pelo governo do PT. Vide as MPs 664 e 665, o anúncio de reforma da previdência, etc. Porém, o patronato quer mais rapidez. Por isso o engajamento da FIESP, por exemplo, no pedido de cassação de Dilma.


O apetite burguês não para por aí. Como existe muito capital acumulado nos cofres do sistema financeiro, aguardando oportunidades lucrativas de investimento, a bola da vez é a mercantilização da saúde, educação e outras necessidades básicas. Nesse sentido, a precarização deliberada de serviços essenciais visa abrir as portas para o setor privado.


A ofensiva do capital sobre o trabalho se aproveita do caminho aberto pelo sindicalismo conciliador, que em troca de migalhas adotou a defesa incondicional do governo, em prejuízo da luta autônoma dos trabalhadores. Buscando proteger Dilma da turbulência oriunda da adoção de medidas impopulares, foram aceitando acordos coletivos rebaixados e exaltando políticas compensatórias como grandes conquistas para a classe.


Com essa política de amoldamento à ordem, os sindicalistas de parceria conflitiva, como se autointitulam os burocratas, foram trocando ganhos reais por participação em lucros e resultados (PLR). Em vez de colocar a classe em movimento para defender seus direitos e conquistas históricas, capitularam à lógica desavergonhada das demissões voluntárias, redução de salários, além da perda de outras importantes cláusulas sociais obtidas através de muita luta.


Ainda que a atual conjuntura seja adversa à classe trabalhadora, em função da passividade estimulada pelo sindicalismo chapa branca e da submissão inerente à conciliação governista, também surgem possibilidades de contraofensiva para a militância classista dialogar com as bases de todas as categorias profissionais, numa perspectiva de reorganização de resistência e autodefesa de seus direitos.


Assim sendo, a UNIDADE CLASSISTA propõe a construção de um bloco de forças sindicais e populares que assumam a tarefa de organizar a classe para coletivamente: exigir investimentos públicos em saúde, educação, saneamento básico, moradias populares, mobilidade urbana; mais empregos e melhores salários; enfrentar as demissões imotivadas; ocupar as unidades de produção falidas e complexos habitacionais erguidos com as reservas do FGTS para servir à especulação imobiliária, construindo espaços de autonomia e exigindo a injeção de fundos orçamentários do Estado, cuja maior fatia (73%) tem sua origem nos impostos pagos por quem ganha até 3 salários-mínimos.


Com esta perspectiva a UNIDADE CLASSISTA conclama as organizações classistas consequentes a se unirem na construção de um 1º DE MAIO de massa, convocado desde locais de trabalho e moradia para manifestações nas capitais dos estados, dando uma demonstração da disposição da classe trabalhadora para enfrentar o projeto de contrarreforma do estado e o ataque aos seus direitos históricos.


Com esta perspectiva a UNIDADE CLASSISTA conclama as organizações classistas consequentes a se unirem na construção de um 1º DE MAIO de massa, convocado desde locais de trabalho e moradia para manifestações nas capitais dos estados, dando uma demonstração da disposição da classe trabalhadora para enfrentar o projeto de contrarreforma do estado e o ataque aos seus direitos históricos.


Rumo ao Encontro Nacional da Classe Trabalhadora – ENCLAT.


Defender direitos e na luta ampliar conquistas!


Acesse: csunidadeclassista.blogspot.com

25/04/2016

O que é ser feliz?


A felicidade é apresentada como um fator importante na Filosofia desde que ela se tornou predominante como método de discutir e conhecer o mundo. Mas a discussão sobre ser feliz é bem anterior à Grécia Antiga e pode mesmo ser encontrada nas tradições orais depois transcritas, como se nota com a leitura de livros religiosos como a Bíblia e o Corão. A felicidade, portanto, é um tema pois peremptório e intrínseco à história humana, mas sempre com importantes distinções e que muito esclarecem sobre cada povo e os tempos por eles vividos.

Uma das distinções básicas do entendimento em Grécia Antiga do que simbolizava a felicidade pode ser compreendida quando a mesma é vista como ideal a ser atingido em Epicuro, por meio dos prazeres; ou como condição moral, a virtuosidade, em Platão. No entanto, mesmo diante do debate da plenitude, havia a consciência da decadência natural de uma sociedade injusta: um famoso provérbio grego dava conta que "A melhor das coisas é não nascer", afinal a vida carrega desde os seus primeiros instantes a relação dialética de ganhar e perder. E por vezes se perde muito mais do que se ganha.

Não é a toa que a visão filosófica sempre marginalizou versões totalitárias do conceito felicidade, muito em voga no senso comum moderno, uma espécie e busca pelo Jardim do Éden na Terra a ser alcançado com trabalho, disciplina calcada na moral protestante e fé bondosa do cristianismo primitivo. Mas, como diria o sábio Odair José, a "felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes". Uma lição básica, exposta em uma música popular de sucesso, mas pouco entendida em um mundo pouco virtuoso e que os prazeres são atrelados meramente ao consumo. Nada mais infeliz e degradante pois que uma sociedade que compra presentes caros pra mostrar o valor da amizade ou de um compromisso amoroso. É a antítese do que deve, ou deveria, ser uma boa amizade ou um bom romance, cujos valores de interesse deviam estar contidos nas pessoas e não nas coisas por elas adquiridas.

Como já diria Marx, o maior filósofo da contemporaneidade, "a desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas." É exatamente o que presenciamos, algo que não dialoga nem com a felicidade de Epicuro, dos prazeres, de se ligar ao outro e nem com a de Platão. Muito menos com a de Sócrates, para o qual ser feliz era, em essência, ser justo.

Vivemos portanto em um mundo absolutamente infeliz, inclusive por suas próprias regras a respeito do que deveria ser felicidade, e que o número altíssimo e crescente de depressivos, a doença das sociedades capitalistas modernas, vem apenas a escancarar do modo mais difícil e doloroso possível -- sobretudo pra quem perdeu um ente para esta enfermidade.

19/04/2016

Como o lulismo matou o PT

Por Gustavo Gindre

Em 1982 o PT elegeu apenas 8 deputados federais.

Em 1986 foram 16.

Em 1990 foram 35.

Em 1994 foram 49.

Em 1998 foram 58.

E em 2002 foram 91.

Ou seja, o PT na oposição só fez crescer, eleição após eleição, o número de deputados federais.

Mas, aí o PT chegou ao poder e passou a imperar a lógica da governabilidade e das alianças (inclusive proporcionais) com partidos de direita.

Em 2006 (a primeira eleição com o PT já no poder) foram eleitos 83 deputados federais. A primeira queda na série histórica.

Em 2010 houve um pequeno crescimento para 88.

Em 2014 o número desabou para os atuais 69.

Depois que chegou ao governo, o número de deputados federais não apenas não cresceu como diminuiu drasticamente.

Com certeza isso fez falta no domingo.

Mas, os "jenios" da política não se importaram em matar o partido para permanecerem no poder.

Crise capitalista se aprofunda e ameaça Alemanha

Para muitos a Alemanha representava um exemplo formidável diante do caos provocado mundo a fora pela terceira maior crise sistêmica do capitalismo iniciada em 2008. Apesar de conseguir apontar algum crescimento modesto nos últimos anos e as autoridades do Bundesbank reforçarem um discurso relativamente otimista, a crise parece estar mais e mais próxima dos tedescos. Até empresas com solidez como as montadoras passam por momento muito delicado: a BMW, por exemplo, teve uma grande perda na casa de 20% com suas ações. A Alemanha, cabe ressaltar, representa política e economicamente a maior liderança dentro da Zona do Euro e sinais de agudização da crise no país repercutirão não apenas no velho continente, mas em todo o mundo.

Leia aqui:

(Bloomberg) -- No ano passado, as bolsas alemãs ainda figuravam entre as favoritas dos investidores na Europa. Agora, até mesmo os estrategistas, que começaram o ano com previsões otimistas, se tornaram pessimistas.

O índice de referência, o DAX, cairá 1,6% neste ano, segundo a média de treze projeções compiladas pela agência de notícias Bloomberg. A queda constituiria o primeiro declínio anual desde 2011 para o indicador, que subiu quase o dobro do que os outros da região desde que atingiu um valor mínimo nesse ano.

Os estrategistas diminuíram suas previsões para o final do ano em toda a região em meio ao crescente pessimismo em relação aos lucros. Antes preferidas porque as exportações as tornavam resilientes à economia em problemas da Europa, as empresas do DAX têm sido punidas pela desaceleração da demanda global e pelo fortalecimento do Euro.

Embora o índice tenha se recuperado mais rapidamente do valor mínimo atingido em fevereiro que o Stoxx 600, a preocupação com que uma piora da perspectiva para o crescimento freie um rali que devolveu mais de US$ 200 bilhões às ações alemãs em dois meses está crescendo.

"Mesmo não tendo parecido assim ultimamente, a situação continuará sendo bastante dura", disse Ralf Zimmermann, estrategista do Bankhaus Lampe em Düsseldorf, Alemanha. Ele espera um ganho anual de 0,5% no índice alemão.

"O DAX é impulsionado principalmente por acontecimentos globais e suas ações estão muito expostas ao ciclo global de negócios - as condições para um impulso ao crescimento não existem".