26/08/2015

Sobre movimentos de minorias pós-modernos.

Talvez eu esteja a exagerar, mas vários dos grupos de discussão de minorias hoje simpáticos a agendas de partidos de esquerda como o PSOL já estão dominados por uma lógica liberal-conservadora. A partir do momento que se diz que um assunto premente e de caráter social como o machismo ou o racismo tem limitação na participação do debate, já se coloca uma lógica privatista, do fenômeno social como dilema de alguns e não de todo. Do machismo falam as mulheres; do racismo o negro; da transfobia a pessoa trans* e por aí vai. Ignora-se o caráter de alteridade e empatia. Confunde-se a ordem das coisas. O argumento não passa a valer pelo seu conteúdo lógico, por sua razoabilidade, mas por quem o expressa e as características psíquico-físico-biológicas que carrega.

É claro que a vivência é importante e que tais discussões não podem se furtar a trazer a voz daqueles que são seus protagonistas, porque isso acarretaria na reafirmação da lógica da exclusão a que essas minorias são vítimas. Mas também não é factível dizer que apenas a lógica da experiência enquanto indivíduo baste, pois assim o fosse todo trabalhador ao longo de uma jornada de trabalho chegaria à conclusão de que o capitalismo traz em si ferramentas de espoliação das riquezas produzidas. Ou em um caso individual, a Condoleezza Rice, mulher e negra, que cresceu em um período de grande opressão, até perdendo uma colega de escola vítima de um atentado racista, jamais ostentaria opiniões conservadoras e não participaria de uma gestão marcada por profunda negligência a problemas sociais.

Concluo portanto que é necessário não negar o caráter social dessas questões, o fator de classe inclusive, e que é preciso sempre estar apto a ouvir, refletir e não partir de um prejulgamento fundamentalista. É possível que muitas pessoas que se predisponham a participar desses debates carreguem consigo as expressões dominantes supressivas existentes na sociedade, mas são pontos a serem desconstruídos, às vezes lentamente. O fato de eu em algum momento asseverar qualquer coisa com algum teor machista não faz de mim um misógino machista digno das piores ofensas. É igualar alguém que está tentando se livrar dessas heranças culturais seculares com uma pessoa qualquer que as reafirma como condição básica de pensar o mundo. É outrossim partir do pressuposto de que seres humanos não erram, são infalíveis, e que a mudança é impossível -- uma ótica profundamente reacionária.

Ao mesmo tempo tais pontos requerem de nós, que não somos objeto central do debate, ainda que dele participemos, compreensão e empatia. Apreender que o outro lado carrega ressentimentos, experiências traumáticas e que o lidar com elas não é sempre fácil. Somos humanos, afinal. Mas continuar a empregar a lógica da "privatização de problemas sociais" é um enorme retrocesso e que tem como consequência quase sempre o ressoar de noções moralistas, de exclusão e, em muitos casos, transformadas em ações concretas calcadas em mero punitivismo. Práticas históricas dos exploradores e que estão a virar régua de alguns explorados. O resultado concreto é que o conservadorismo passa a ser reafirmado por todos os lados. E somos todos nós que perdemos.

24/08/2015

Futebol moderno e o torcedor "fanboy" no Brasil

Toda empresa tem como base a idéia de prestar um serviço ou vender um produto, que deve ter uma determinada finalidade para que possa assim alcançar um público, que por sua vez é chamado de mercado. É uma relação a princípio bastante simples, mas que foi a ser aprimorada com o passar do tempo, a exigir novas ferramentas, algumas das quais bastante complexas. A mais poderosa delas, sem dúvida, o marketing.

E dentro da estratégia de marketing há a propaganda, que tenta não apenas fazer um produto parecer bom para o consumo, mas também reforçar a idéia de que agrega um "valor" extra para o seu consumidor; um produto que tem personalidade própria, estilo, como se fosse uma pessoa, e que é essencial para a vida, transformando o supérfluo em necessidade.

A partir do aprofundamento dessas táticas, não seria difícil supor, apareceram os fãs dessas marcas -- pelo menos de modo massificado. Fãs que se encaram como se fossem verdadeiras personificações de tais valores e modos de ser, e que estes são por sua vez incorporados por meio da "compra" e nesses indivíduos se confundem.

É aí que surge a figura do "fanboy", o admirador convicto dessas expressões e que acredita ser o portador da identidade conferida por elas. Exemplos abundam atualmente e acredito que talvez o maior símbolo global seja a "Apple". Outro antro onde essa presença é muito forte é o dos videogames, com pessoas que se intitulam no Brasil "sonystas" (PlayStation da Sony); "caixistas" (Xbox da Microsoft); e "nintendistas" (Wii-U; Wii e outros consoles da Nintendo).

Mas onde entra o futebol nisso? Pois é bastante simples: como os times viraram empresas nessa fase moderna do esporte e são tratados como tal, a associação feita a partir do marketing é toda com base na propaganda de uma marca. Uma marca que transporta paixão e não apenas um time que joga um esporte. E é aí que a figura do "fanboy" aparece na relação do indivíduo com o clube de futebol. E sobretudo onde a relação "futebol-empresa" é melhor desenvolvida, isto é, nos clubes da Europa. Ou pelo menos nas principais ligas, como as da Espanha, Alemanha, Inglaterra e Itália.

Contudo ela tem suas peculiaridades: esse "fanboy" nunca tem um vínculo orgânico com a entidade esportiva, porque o elo existente é em muito efetivado a partir do campo da "idealização". Assim como os "fanboys" de uma empresa capitalista jamais serão um de seus acionistas, que compreendem a lógica ali existente, ou pelo menos parte dela, o "fanboy" futebolístico não é alguém próximo do clube. Isso não significa que esse não domine uma série de informações sobre o mesmo (informação como uma intermediação distinta de conhecimento). Em geral são pessoas muito bem informadas sobre as coisas que ali acontecem até pelo grau de fanatismo e a margem para tal que as tecnologias de informação atualmente propiciam.

No entanto a correspondência ao clube é completamente distinta do torcedor comum. Enquanto este se liga ao time de futebol por uma relação afetivo-parental, isto é, por estar em ambiente em que aquele clube exerce uma influência afetiva no conjunto das pessoas, seja positiva ou negativa, mas com algum grau orgânico, o "fanboy" se vê numa relação afetivo-mercadológica, sem qualquer organicidade. É apenas uma relação-produto, de compra e uso. É extremamente postiça, mas encoberta de acepções de afirmação de caráter e de justificação existencial.

E uma característica intrínseca a esse "novo tipo" no futebol transformado em mercadoria é a ligação a partir de uma "negação". Antes de um torcedor de um time, como no caso de um corintiano ou são-paulino, que a priori gostam dessas agremiações e só a partir delas criam distinções como as que as diferem dos seus rivais, essa pessoa é alguém que nega um determinado tipo de relação e constrói em cima disso suas predileções. É daí que surge a profunda relação de fanatismo e intolerância para o contrário.

No caso específico do "fanboy" no Brasil, pode-se notar, antes da sua afirmação enquanto torcedor de uma equipe européia, está a profunda ojeriza tanto ao futebol nacional quanto à relação das pessoas com seus times, bem como uma profunda "idealização" da marca para qual dispensa seu fanatismo no exterior, geralmente calcada em discursos prontos como idéias pré-concebidas de que são mais "organizadas", "melhores" ou "honestas" em contraposição ao que aqui temos, que é sinônimo de "desorganização", "bagunça", "corrupção" e "pior".

É daí que concluo que uma base importante dessa associação é o "complexo de vira-lata". O discurso "do que é de fora sempre melhor do que o que existe aqui dentro" é uma constante no discurso do "fanboy" futebolístico brasileiro. Outra característica atinente a esse "novo tipo" de torcedor é a necessidade de se sentir "exclusivo". Não é um fenômeno característico do "fanboy" no mundo todo. Isso se deve claramente ao sentimento individualista e de tentativa de distinção social próprio às nossas classes médias, que apesar de em grande parte formada por trabalhadores assalariados, sempre tiveram uma condição de vida bastante melhor que a ampla maioria dos trabalhadores dado o fato histórico da enorme desigualdade social no país.

É por isso que é um equívoco afirmar que o "fanboy" é o mesmo que o "torcedor modinha", alcunha utilizada para difamar torcedores de ocasião que torcem por equipes que estão, como o próprio nome diz, na moda. Ainda que a relação e o modus operandi de ambos possam ser parecidos em alguns momentos, há importantes distinções entre essas modalidades de torcida.

Já as principais distinções entre o "fanboy" e o torcedor convencional na relação com o clube que se identificam são facilmente perceptíveis. Enquanto o torcedor comum vê no seu clube um ente a quem destina amor, mas que não está alheio a erros, equívocos e problemas; o "fanboy" vê no seu time uma reafirmação de si enquanto indivíduo, tendendo a deificá-lo, alocando-o em um panteão, sendo as críticas, o posicionamento contrário, uma violação gravíssima, uma blasfêmia.

Para finalizar, é preciso pontuar que muitas empresas perceberam que esse tipo não é muito benéfico para suas marcas, já que por serem belicosos acabam por criar um certo grau de antipatia. E essa antipatia pode ser transferida à empresa. Mas como o futebol é um esporte e a relação de paixão é sempre muito presente, será um tanto que difícil para os clubes moderarem o aparecimento desse fenômeno moderno, que é em verdade a consequência de o futebol ter virado um grande negócio, e os clubes, pelo menos os mais ricos deles, empresas transnacionais.

O número de "fanboys" -- ou "fangirls", pelo menos aqui no Brasil, só cresce ao passo que o torcedor comum, ligados às entidades esportivas nacionais em sua maioria, parece diminuir -- ou pelo menos não demonstrar o mesmo interesse. Até porque os times daqui se transformaram em meros exportadores de "pé-de-obra" para essas grandes marcas européias. Mas isso é assunto pra outro texto. O que importa asseverar aqui é que a relação das pessoas com o futebol está a mudar. E para muitos, está mudando para pior.

21/08/2015

Golpe branco: o capital ganha com a crise e os trabalhadores pagam a conta

(Nota Política do PCB)

Aproveitando-se do auge da crise política que estimularam – sangrando o PT – e preocupados com um iminente impasse institucional em meio ao agravamento da versão brasileira da crise mundial do capitalismo, os monopólios patrocinadores das campanhas eleitorais da grande maioria dos governantes e parlamentares impõem um novo pacto burguês ao país.

Em troca de uma garantia formal e conjuntural de governabilidade, o PT – já no fundo do poço de sua trajetória de conciliação com o capital e traição à classe trabalhadora – terá que aceitar uma maior terceirização do governo, reprimir a rebeldia popular e resgatar uma cara hipoteca: a chamada “Agenda Brasil”. Isto significa que haverá mais exploração dos trabalhadores, privatização do patrimônio público residual, destruição do meio ambiente e sucateamento dos serviços públicos e do Estado, para alavancar a lucratividade dos monopólios em nome da “responsabilidade fiscal”, eufemismo para garantir o fiel e pontual pagamento aos banqueiros e outros rentistas beneficiários de uma dívida pública sem transparência.

Para assegurar essa governabilidade (que em verdade só será garantida se a economia apresentar sinais de recuperação), resolvendo a crise política institucional para se concentrar na crise econômica, instala-se um parlamentarismo de fato, sob o comando do indefectível PMDB. Os próximos passos, que já se presumem, são tirar das ruas as manifestações contra e a favor de Dilma, livrar de processos judiciais por corrupção os que aderirem à conciliação premiada, desativar a pauta “bomba”, no que se refere às questões fiscais, e isolar e amaciar os parlamentares recalcitrantes que insistirem em botar fogo no circo da democracia burguesa.

O acordo imposto pelos monopólios e costurado com as cúpulas do PT e do PMDB, e que certamente contou com o respaldo de setores do PSDB mais orgânicos ao capital, não significa um respaldo ao mandato de Dilma até 2018, mas uma trégua para apagar o incêndio da atual crise política. A arma do impedimento da Presidente continuará como uma ameaça potencial, para que ela ceda a mais exigências do capital e se torne cada vez mais refém dos caciques do PMDB, que detêm todos os cargos na linha de eventual sucessão de Dilma, por qualquer motivo.

Antevendo a vigorosa reação dos trabalhadores e dos setores populares, tanto ao ajuste fiscal e ao corte de direitos que já vêm sendo praticados por Dilma como à nova agenda neoliberal anunciada como de “união nacional”, o governo da Presidente eleita pelo PT apresentou ao Congresso Nacional um projeto de lei (número 2.016), já aprovado pela Câmara, que, a pretexto de combater o terrorismo, tem como principal objetivo a repressão e a criminalização das lutas populares contra a ordem do capital.

O PCB chama a atenção de militantes de partidos, correntes e movimentos sociais ditos de esquerda que, a partir de agora, será ainda mais insustentável a mobilização popular sob o discurso de “defesa da democracia e contra o golpe”. A burguesia já deu o golpe e ele foi contra os trabalhadores e dentro do que chamam de democracia!

Convidamos todas as forças e expressões anticapitalistas, principalmente as que se opõem ao governo petista numa perspectiva de esquerda, à necessária e urgente organização e mobilização dos trabalhadores e demais setores explorados numa unitária e massiva campanha contra as medidas neoliberalizantes contidas nos ajustes fiscais de Dilma e na “Agenda Brasil” e contra o projeto de lei 2016.

É preciso ainda incluir nesta pauta a luta pela suspensão imediata do pagamento da dívida pública. Em 2014, enquanto a União consumiu 45,11% do seu orçamento para pagar juros e amortizações da dívida, dedicou apenas 3,98% para a saúde e 3,73% para a educação. Para assegurar o pagamento aos rentistas, pontualmente, são cortados investimentos públicos e se adiam pagamentos de direitos trabalhistas, como foi o caso recente do abono salarial e, agora, da primeira parcela do décimo terceiro aos aposentados.

Basta de alimentar ilusões na classe trabalhadora. Não existe qualquer possibilidade de administrar o capitalismo de forma a torná-lo humano e ético, sobretudo em meio à crise sistêmica de sua forma imperialista.

Só a luta dos trabalhadores e demais setores proletários pode garantir seus direitos e acumular forças para acabar com a exploração e construir o Poder Popular, pavimentando o caminho à sociedade socialista.

PCB – Partido Comunista Brasileiro
Comitê Central (18 de agosto 2015)

18/08/2015

Um desacordo entre manifestantes e os convocantes dos protestos?



Manifestantes percebem a corrupção afetando tanto Governo como oposição, a despeito do discurso seletivo dos grupos que tem chamado as manifestações. Também defendem serviços públicos universais e gratuitos como saúde e educação
  • 'Um protesto contra todo o sistema político?'

No último domingo, 16 de agosto, conduzimos mais uma pesquisa junto aos manifestantes que estavam nas ruas protestando contra o Governo federal e a situação política do país. Concluímos que, pelo menos em São Paulo, os manifestantes percebem a corrupção afetando tanto Governo, como oposição, a despeito do discurso seletivo dos grupos que tem chamado os protestos. Também destoando dos grupos liberais que lideram os protestos e pregam o Estado mínimo, os manifestantes defendem serviços públicos universais e gratuitos como saúde e educação. Esta pesquisa dá sequência a outra, que fizemos na manifestação do dia 12 de abril, que mostrou que a insatisfação e descrença dos manifestantes não estava concentrada na presidente Dilma e no PT, mas se estendia a todo o sistema político, incluindo todos os partidos, ONGs, movimentos sociais e a imprensa [1].

Apesar da descrença no sistema político ser generalizada, os grupos que lideram os protestos estão se empenhando em dar um tratamento seletivo à indignação, enfatizando a corrupção do Governo federal e poupando atores políticos como o presidente da Câmera Eduardo Cunha, que podem ser aliados úteis para um processo de impeachment.

Por isso, medimos a percepção da gravidade de escândalos de corrupção envolvendo governo e oposição e também a percepção de envolvimento de líderes políticos dos dois campos. Como era de se esperar, a quase totalidade dos manifestantes (99%) consideram grave os escândalos do mensalão e da Lava Jato. No entanto, constatamos que os escândalos de corrupção que envolvem o PSDB também são percebidos como graves. 80% dos manifestantes consideram grave o mensalão tucano e 87% consideram grave o escândalo de corrupção no metrô e na CPTM em São Paulo.

Quando investigamos a percepção do envolvimento individual de políticos dos dois campos com corrupção, a percepção é um pouco diferente, embora não tanto como se poderia esperar. 90% dos manifestantes consideram a presidente Dilma corrupta e 77% consideram o prefeito Fernando Haddad corrupto, mas uma parcela expressiva de 42% dos manifestantes considera também o governador Geraldo Alckmin corrupto e 38% consideram corrupto o senador Aécio Neves.

A descrença no sistema político como um todo, que tínhamos capturado na pesquisa da abril, poderia dar lugar a dois tipos de soluções: soluções que buscam ampliar e aprofundar a democracia ou saídas antipolíticas para a crise. A literatura sociológica, por exemplo, costuma apontar a valorização da democracia interna de movimentos e associações cívicas como base para uma reforma profunda do sistema democrático.

Assim, investigamos se os manifestantes estavam mais de acordo com soluções antipolíticas, como entregar o poder para militares, juízes ou atores de fora do jogo político tradicional, ou se, ao contrário, buscavam soluções que buscam aprofundar a democracia, com mais participação, seja institucional (por meio de plebiscitos) ou pela sociedade civil organizada (participação em ONGs e movimentos).
56% concordam totalmente ou em parte que para solucionar a crise é preciso entregar o poder para alguém que esteja fora do jogo político

Os resultados, neste caso, foram mistos. 56% concordam totalmente ou em parte que para solucionar a crise é preciso entregar o poder para alguém que esteja fora do jogo político. 28% concordam totalmente ou em parte que a solução é entregar o poder para os militares e 64% para um juiz honesto. Por outro lado, 77% concordam total ou parcialmente que é preciso ampliar a participação por meio de mecanismos como o plebiscito e 59% por meio do fortalecimento de ONGs e movimentos sociais.

Buscamos também investigar se a indignação que alimentava as manifestações de 2015 tinha ligação com aquela que estava na base das de junho de 2013, a despeito da profunda diferença de orientação política das lideranças e da composição social dos protestos (formado por pessoas mais velhas e mais ricas). Diversas pesquisas de opinião tinham mostrado que as reivindicações de junho de 2013 consistiam numa combinação de rejeição do sistema representativo e demandas por mais e melhores direitos sociais, em particular, saúde, educação e transporte.

Assim, buscamos investigar em que medida os manifestantes concordavam com a universalidade e gratuidade desses serviços públicos que atendem direitos sociais. A questão não era apenas importante porque sugeria conexões profundas e mais ou menos ocultas entre as duas ondas de protesto, mas porque mostrava um grande desacordo entre o que pensam os manifestantes e o que pensam algumas das lideranças dos protestos, que tem uma orientação ultraliberal.

Constatamos índices muito elevados de defesa da universalidade e da gratuidade dos serviços públicos. Entre os manifestantes, 97% concordam total ou parcialmente que os serviços públicos de saúde devem ser universais e 96% que devem ser gratuitos. Já 98% concordam total ou parcialmente com a universalidade da educação pública e 97% com a sua gratuidade. Até mesmo uma demanda social recente e algo heterodoxa como a gratuidade do transporte coletivo (a “tarifa zero”) encontra 49% de apoio total ou parcial entre os manifestantes.

Por fim, buscamos investigar em que medida e de que maneira os manifestantes incorporavam a tendência de moralização da política conhecida como “guerras culturais” [2]. Essa tendência consiste tanto na proeminência cada vez maior de temas morais na agenda política (como drogas, direitos dos homossexuais, aborto e a pena capital), como no tratamento moral de questões sociais e políticas.

Assim, investigamos a concordância dos manifestantes com frases que expressam algumas dessas abordagens morais na política. Além de verificar a difusão e alcance dos discursos morais, queríamos saber se abordagens punitivas são mais frequentes em temas que envolvem relações entre as classes sociais (como desigualdade, criminalidade e imigração) e se, em temas relativos a direitos individuais (como homofobia, direitos das mulheres e drogas), predominam abordagens mais compreensivas.

Constatamos que em temas que envolvem relações entre as classes sociais, 70% concorda total ou parcialmente que “é justo que quem estudou e se esforçou mais na vida tenha alguns privilégios”; 86% concorda total ou parcialmente que “a melhor maneira de conseguir paz na sociedade é aumentando a punição aos criminosos” e 80% concorda total ou parcialmente que “negros não devem usar a cor da pele para conseguir privilégios como cotas raciais”.

Por outro lado, constatamos também que em termos de liberdades e direitos individuais (talvez porque podem envolver pessoas da mesma classe social), prevalecem posturas mais compreensivas e tolerantes. 79% dos manifestantes discordam que “haveria menos estupros se as mulheres tomassem mais cuidado e não usassem roupas curtas”; 61% discorda que “relacionamentos entre gays não são naturais e gays não deviam expressar afeto em público” e até mesmo 50% concorda total ou parcialmente que “as pessoas devem ter o direito de fumar maconha legalmente desde que não prejudiquem os demais”.

Notas:
[1] Esther Solano; Lucia Nader; Pablo Ortellado. “Um protesto contra todo o sistema político?” El País. 14 de abril de 2015. Disponível aqui.
 [2] Pablo Ortellado “Guerras culturais no Brasil” Le Monde Diplomatique Brasil. Disponível aqui. 

Pablo Ortellado
é professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP; Esther Solano é professora de Relações Internacionais da UNIFESP; Lucia Nader é cientista política pela Sciences Po-Paris e fellow da Fundação Open Society.

Link: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/08/18/opinion/1439933844_328207.html

Manifestação do dia 16 teve perfil conservador, mas com surpresas

Em geral as manifestações contra o governo Dilma e o Partido dos Trabalhadores têm propiciado imagens lamentáveis, de extrema-direita, e isso em muito tem sido usado para desqualificar tais atos por parte de pessoas simpáticas ao governo e o seu partido. Em parte é verdade que há sim pessoas em tais manifestações que se aproximam -- e muito -- de coisas absurdas como Jair Bolsonaro e discursos proferidos por figuras deploráveis. Na seguinte pesquisa realizada pela USP e pela Unifesp, coordenada por Pablo Ortellado e Esther Solano, Jair Bolsonaro foi citado por quase 10% das pessoas como exemplo de político honesto. Mas na mesma pesquisa Eduardo Suplicy e Luiza Erundina, políticos importantes de esquerda e com trajetória no PT, foram citados por algumas pessoas, o que demonstra que há um público que muito possivelmente já votou na esquerda e que tem alguma consideração por seus nomes. Algo bem típico da classe média, que como disse Golbery Lessa no texto anterior, costuma flutuar entre esquerda, centro e direita. O que fica bem evidente quando a esmagadora maioria é favorável aos serviços públicos como saúde e educação e de forma gratuita (o que destoa muito do defendido por grupos que convocam os atos como o Movimento Brasil Livre, que preconiza redução drástica do tamanho do Estado).

O público é de classe média, eleitor do PSDB e demonstra certo conservadorismo nos valores, mas passa longe de ser homogêneo. E pautas da esquerda social-liberal chegam a ter grande apoio, como no caso dos manifestantes -- em maioria -- que dizem ser contra o financiamento empresarial de campanha.

Vale a pena conferir (clique nos gráficos para ver melhor):











 Pesquisa completa em: https://gpopai.usp.br/pesquisa/

Não rima com mãe gentil

*Por Golbery Lessa

Para refletirmos com mais objetividade sobre a conjuntura e as manifestações de hoje,16 de agosto, em algumas cidades brasileiras, seria importante relembrar alguns pontos básicos da sociologia politica e da história das ideias relativos às atitudes políticas da classe média.

1) Diferente da grande burguesia, um setor cada vez mais minoritário em termos demográficos, os setores médios da população não aderem, necessariamente, ao reacionarismo. Eles oscilam entre esquerda, centro e direita. Isso se comprova, facilmente, no caso brasileiro pelo fato de que, em vários momentos, muitas segmentos da classe média assumiram bandeiras progressistas, como no movimento pelas Diretas Já ou mesmo, surpreendentemente, na história da construção do PT;

2) a classe trabalhadora também oscila entre as três principais posições do espectro político (esquerda, centro e direita). Mas, por suas especificidades econômicas e culturais, é capaz, em algumas conjunturas, de manter-se à esquerda com mais coerência e durante um tempo maior; por ocuparem posições mais decisivas para a reprodução da sociedade e serem mais numerosos, quando os trabalhadores se colocam como vanguarda são capaz de provocar profundas mudanças econômicas e políticas, como as revoluções socialistas;

3) a classe média (definida como os pequenos e médios empresários e os segmentos assalariados melhor remunerados e qualificados) tem uma natureza sociológica híbrida, pois comporta em si características da burguesia o do proletariado. Esse hibridismo é a raiz de sua oscilação política, do seu seguidismo em relação aos projetos das duas classes fundamentais (a burguesia e os assalariados), da sua ilusória autoimagem (de que seria uma classe acima das classes, neutra, objetiva, moralmente superior, sem interesses particulares) e do seu politicismo (ou seja, da ideia de que o espaço da política não seria determinado pela economia, seria o espaço mais importante para a reprodução da sociedade e movido apenas pela moral). Em resumo: por ser híbrida, uma mistura entre proletariado e burguesia, a classe média não pode ter um projeto político próprio que seja coerente, plausível e factível. Essa característica sociológica se expressa em fragilidade política e ideias contraditórias sobre a realidade social e o Estado.

As motivações declaradas do ato deste dia 16, coordenado pelos setores médios, e o do próximo dia 20, organizado por sindicatos e movimentos sociais, demonstram uma separação entre parte da classe média e os setores mais organizados da classe trabalhadora. Ou seja, revelam que a grande burguesia conseguiu dividir as duas outras classes e subordiná-las ao seu projeto, que está representado tanto no PSDB quanto no campo majoritário do PT e no PMDB. Isso explica a falta de consistência das bandeiras dos dois atos e sua marcante aparência de farsa, de peça mal ensaiada, de ausência de crença efetiva nas próprias ideias.

No ato de hoje, dia 16, parte da classe média desejou demonstrar independência ideológica e projeto político próprio. Mas, de fato, demonstrou apenas estar subordinada e manipulada pelos seu principal adversário: o grande capital. Aquele que a tem estrangulado por meio do altos juros, dos inflacionados preços das escolas particulares e das sempre crescentes mensalidades dos planos de saúde, entre outros mimos do gênero. Essa alienação da classe média foi causada por dois motivos: 1) pelo fato de que os governos petistas não contribuíram para proteger esta classe contra os interesses das grandes empresas, levando os setores médios a buscarem representação em outros grupos políticos; 2) pelo fato de o PT ter assumido o programa da direita e convencido os sindicatos e movimentos sociais a trilharem o mesmo caminho; isso neutralizou esses sindicatos e movimentos como vanguardas alternativas à burguesia, deixando a classe média sem uma sinalização clara à esquerda. Ou seja, o PT aliou-se ao grande capital, não regulou de modo justo a relação deste com a classe média e convenceu os trabalhadores organizados de negarem-se como efetiva vanguarda de esquerda. Alimentou, portanto, as raízes do antipetismo e do mergulho de parte da classe média num delirante reacionarismo.

O ato do dia 20 será o outro lado da farsa. Vários sindicatos e movimentos sociais irão à rua dizer que o governo Dilma é o seu governo e que estão dispostos a enfrentar a direita golpista, a suposta única fiel representante da elite brasileira. Ao mesmo tempo irão protestar contra o programa de Dilma, particularmente as medidas relativas ao ajuste fiscal. Vão defender o governo das investidas de uma parte da direita (PSDB e Cunha) e criticarão, ao mesmo tempo, o programa neoliberal assumido pelo PT. Ou seja, a parte organizada da classe trabalhadora que se nega, desde a Carta aos Brasileiros, a ser a vanguarda à esquerda, ficando por esse motivo apartada da classe média, irá defender um governo totalmente subordinado ao grande capital com bandeiras contrárias os interesses da burguesia.

Na presente conjuntura, o grande capital manipula, isola e explora a classe média, os trabalhadores e o governo petista. E ainda conta, numa eventualidade, com o PMDB e o PSDB como alternativas de poder. Pesadas as principais variáveis sociológicas e o retumbante fracasso da estratégia política do PT, a classe média é mais vítima do que algoz no delírio reacionário e perigoso que ostentou hoje nas ruas.

Golbery Lessa é doutor em Ciências Sociais e membro do CC do PCB.

Maceió, 16/08/2015

13/08/2015

Torturra: tentativa de defender políticas do planalto causa vergonha alheia

*Por Bruno Torturra:

Governo apresentou, pediu urgência e ajudou a aprovar um projeto que criminaliza parte de movimentos sociais, desobediência civil e estratégias de protesto como terrorismo.
Alguns pontos.

- O Brasil, felizmente, nunca foi alvo real de organizações terroristas. Mas é vítima, sim, de uma mortalidade civil equivalente a uma guerra sangrenta. A crise de segurança pública, homicídios, crime organizado e execuções praticadas por policiais são questões gravíssimas. Demandam ações políticas profundas. Estamos reformando polícias? Revendo política de drogas? Desarmando a população? Refundando o sistema carcerário? Não. Estamos tipificando terrorismo. E criminalizando gente que luta, inclusive, contra a violência de Estado. Essa que, para milhões de brasileiros pobres e negros, representa verdadeiro terror.

- Temos uma presidente que até hoje é desqualificada por cretinos como terrorista. Tudo porque, em tempos nefastos, ela lutou corajosamente contra a ditadura que definia suas atividades como terrorismo. Daí seu apelido auto conferido: coração valente. Que hoje não tem coragem de olhar seu próprio passado.

- Vivemos não a capitulação, mas a submissão estranhamente não constrangida de um governo - que se construiu sobre um imaginário de esquerda - ao programa da direita mais medíocre e entreguista. Um governo que foi forjado por décadas de rua, confronto a leis injustas, pelo não conformismo. E que apelou para movimentos de natureza semelhante quando precisou de força para se reeleger.

- Eu já andava com vergonha alheia dos movimentos de esquerda que insistiam em racionalizar uma defesa ao planalto. Como se as escolhas do governo, com todos seus defeitos, fossem as únicas possíveis. Depois dessa, que acordem de uma vez. Ou sigam abraçados à Dilma nessa trágica deriva ideológica.

* Bruno Torturra é jornalista e o comentário foi feito em sua página no Facebook.