Entre os dias 17 a 21 de Abril, reunida em Niterói-RJ, seguindo o
exemplo do grande João Saldanha, o “João sem medo”, a União da Juventude
Comunista consolidou importantes bases para sua construção
revolucionária através do seu VII Congresso Nacional. As centenas de
delegados e observadores presentes no congresso compreenderam a
importância da organização, convicção e
entrega à construção da alternativa revolucionária para os milhares de
jovens, filhos da classe trabalhadora brasileira.
Sob o lema “Organizando rebeldias, massificando lutas!”, a UJC
demonstra a vitalidade do seu crescimento, extremamente vinculado às
grandes lutas e dilemas da juventude brasileira. Lutas que fazem parte
de um contexto que para os jovens comunistas revelam um novo patamar da
luta de classes no Brasil e no mundo.
Em escala mundial, o imperialismo amplia o seu massacre aos povos. O
poder econômico dos grandes monopólios e corporações está intimamente
ligado ao crescente belicismo das grandes potências, à criminalização da
classe trabalhadora e suas organizações e ao massacre cotidiano dos
trabalhadores. A crise sistêmica do capital impulsiona a ofensiva
imperialista, potencializa a guerra e a barbárie cotidiana que retira
maiores perspectivas de vida da juventude trabalhadora.
Para a grande maioria da juventude, o capitalismo tem muito pouco a
oferecer. Em termos de qualidade de vida a tendência é que as novas
gerações vivam pior. Ou seja, com menos direitos, maior jornada de
trabalho, educação privada e de baixa qualidade, acesso limitado à
produção cultural, maior repressão por parte do Estado Burguês, etc.
A ofensiva do Imperialismo atinge uma escala global jamais vista.
Além das incursões contra os povos no Oriente Médio, Síria, Ucrânia, Irã
e Coreia do Norte, acompanhamos novas investidas na América Latina.
Para a juventude comunista, a luta anti-imperialista não se limita a
escolha de um lado menos nocivo nas disputas interimperialistas, mas sim
na ampla mobilização de todos aqueles se revoltam contra as guerras que
atentam contra a soberania dos povos e a exploração de milhares de
trabalhadores. Os jovens comunistas brasileiros expressam sua irrestrita
solidariedade ao povo venezuelano e sua revolução bolivariana. Junto
aos camaradas da JCV, repudiamos as tentativas de sabotagem do governo
norte americano, em parceria com a direita golpista venezuelana, contra o
legítimo governo da Venezuela. Temos a exata noção de que apenas o
aprofundamento do processo revolucionário na Venezuela, a partir da
autonomia da classe trabalhadora e da juventude, poderá golpear de vez
as incursões reacionárias neste país.
Também destacamos a importância da solidariedade junto aos movimentos
populares, às organizações políticas de esquerda e a Insurgência na
Colômbia, que neste momento passa pelas negociações de paz. Reforçamos
que a luta pela paz na Colômbia perpassa por modificações políticas,
sociais e econômicas para o povo colombiano, através do desmonte da
estrutura narco-terrorista do Estado.
O Internacionalismo proletário para a UJC não é apenas um gesto ou
formalidade, mas um princípio base da nossa organização revolucionária.
Por isso, reivindicamos a importância do fortalecimento, em nosso país e
no mundo, da Federação Mundial das Juventudes Democráticas (FMJD),
espaço que deve reunir a amplitude dos atores e organizações que estão
em luta contra o imperialismo. Também avaliamos a importância central da
rearticulação de um polo revolucionário de juventudes comunistas e
revolucionárias, que expresse as lutas contra o poder dos monopólios do
grande capital pelo mundo.
No Brasil, o cenário da luta de classes se acirra cada vez mais com a
intensificação dos efeitos da crise do capitalismo. O pacto social
formado a partir dos governos do PT e seus aliados, que se caracteriza
pela garantia da expansão dos lucros dos grandes capitalistas, aliada ao
apassivamento da luta de classes – através de medidas compensatórias
paliativas, expansão privatista de demandas sociais, como na educação, e
cooptação de entidades e movimentos como a CUT e a UNE para dentro da
lógica institucional deste pacto -, está cada vez mais enfraquecido,
devido à estagnação econômica, aumento da inflação, endividamento
crescente e fortalecimento de setores conservadores e reacionários na
sociedade brasileira.
Reforçando o que o nosso partido vem analisando nos últimos 10 anos,
ao contrário do que tanto se propagava pela estratégia gradualista do
campo democrático popular, a conciliação de classes e a perda de
autonomia política da classe trabalhadora brasileira fortaleceu as
forças políticas mais conservadoras e reacionárias do país. As rebeldias
e inquietudes da juventude popular são cada vez mais disputadas por
ideias, movimentos e organizações conservadoras, algumas fascistas, a
partir de um senso comum baseado no ódio e irracionalidade. O
anticomunismo volta a ser uma expressão forte no Brasil.
Além de conviver com o desemprego crescente, precarização das
relações de trabalho, aumento das mensalidades nas universidades, corte
de verbas na educação pública, privatização da saúde, falta de acesso a
terra e moradia, a juventude trabalhadora também sofre com o massacre
policial por parte do Estado Burguês e seus aparelhos. O Brasil é um dos
países onde mais se mata jovens no mundo, em especial, pobres, negros e
moradores de periferias nos centros urbanos. A política militar de
segurança pública, tomando o “combate às drogas” como pretexto,
recrudesce a onda de criminalização da juventude, através de leis mais
duras e do encarceramento. Não é por acaso que está para ser votada no
congresso a PEC 131, a qual diminui a maioridade penal no país.
Diante desta complexa conjuntura, a UJC afirma a necessidade de ser
uma operadora revolucionária junto da juventude brasileira. Se construir
enquanto uma referência de resistência a esta ofensiva econômica,
social e cultural do capital em crise e suas expressões políticas
desumanas. Referência esta que consiga aliar a experiência prática das
lutas das massas juvenis à formação comunista, e que busque sem
sectarismos a unidade com forças combativas e populares da juventude
brasileira. O desafio é enorme, por isso as grandes decisões do VII
Congresso se concentraram nos pontos de reestruturar nossa organização
para a nova fase mais intensa da luta de classes. A UJC se reestrutura
para a construção do poder popular, isto é, a rearticulação da autonomia
política da classe trabalhadora e sua juventude.
Essa reestruturação visa a aproximação, diálogo e compromisso da
juventude comunista com os filhos da classe trabalhadora brasileira.
Ampliando seu grau de inserção política junto aos estudantes
secundaristas, às escolas técnicas, universidades privadas, aos
movimentos de bairros populares e grupos independentes de cultura.
Trata-se de um novo direcionamento para o crescimento da juventude
comunista, em quantidade e, principalmente, em qualidade. Para isso, um
dos pontos centrais do congresso foi a aprovação de novas políticas de
formação, recrutamento, agitação e propaganda e finanças. A
reestruturação revolucionária não se efetivará se estas resoluções
coletivas não forem plenamente cumpridas.
Também se reforça a continuidade da acertada política em defesa da
Universidade Popular. A disputa na produção de conhecimento e o
incentivo à formação de uma identidade entre estudantes e as demandas e
dilemas da classe trabalhadora é fundamental para os objetivos da nossa
estratégia revolucionária. Devemos continuar e aumentar nossos esforços
na construção dos MUP´s pela base, em conjunto com estudantes
independentes, movimentos populares e forças políticas aliadas. Os MUP´s
são ricos instrumentos para edificarmos a articulação nacional dos
Movimentos em luta pela Universidade Popular.
No movimento estudantil avalia-se a continuidade do atrelamento da
UNE e a UBES ao projeto educacional hegemônico, com cada vez menos
autonomia e referência política para mobilizar os estudantes contra os
ataques que a educação sofre e sofrerá neste próximo ciclo. A juventude
comunista participa dos espaços da UNE e UBES de forma a propagar nossas
bandeiras de luta e dialogar com estudantes independente e forças
políticas de esquerda, para além da disputa por cargos na sua diretoria,
compreendendo que essa disputa não ajuda a resolver o processo de
reorganização do movimento estudantil combativo. A prioridade será a
retomada das entidades e organizações dos estudantes de base, uma
retomada que priorize a reconquista da autonomia e do poder de
mobilização do movimento estudantil brasileiro, subordinada a um projeto
de educação popular e ao diálogo com as forças políticas de esquerda.
Para a frente de jovens trabalhadores, o trabalho será intensificado
junto aos jovens desempregados, estudantes de escolas técnicas,
estagiários e subempregados. Devem-se levar as pautas e campanhas do
mundo do trabalho para todo local de atuação que a UJC estiver
organizada, além de realizar cada vez mais campanhas gerais e
direcionadas junto à juventude trabalhadora. Devemos também incentivar a
luta coletiva e a sindicalização dos jovens trabalhadores, através de
campanhas criativas próprias, utilizando os mais diversos meios.
Apresentando, inclusive, o instrumento do PCB para o trabalho sindical: a
Unidade Classista.
Na frente cultural, através do diálogo com grupos e coletivos locais
independentes, construiremos a campanha de luta pela democratização do
acesso à cultura e produção cultural da juventude. Esse eixo permitirá
lutar por mais cinemas, teatros em praças e bairros populares, assim
como travar o debate de ideias, pela construção de valores contra
hegemônicos. Pretende-se construir um grande festival de cultura da UJC
que tenha um caráter massivo e plural.
A Juventude brasileira também sofre com outras formas opressão,
apropriadas pela lógica do capital cotidianamente. O racismo, mais do
que uma expressão cultural das classes dominantes no Brasil, expressa-se
de forma cruel por parte do Estado. Os massacres policiais contra a
população pobre e negra, a subalternização dos negros no mundo do
trabalho e na educação são apenas alguns exemplos de como os comunistas
devem se preocupar com a luta anti-racista como parte da luta contra o
capitalismo no Brasil. A UJC, em sintonia com o coletivo Minervino de
Oliveira, deve incorporar ações e pautas do Movimento Negro às suas
bandeiras de luta.
Outro ponto muito sentido e discutido no Congresso foi a necessidade
de fortalecermos o feminismo classista. O machismo tem impacto na vida
de milhares de mulheres, em especial nas da classe trabalhadora, estando
presente no âmbito das relações de trabalho às relações domésticas. A
União da Juventude Comunista deve reforçar as pautas do Coletivo Ana
Montenegro, em especial, aquelas que dialogam com a juventude. No que
tange a política de reestruturação revolucionária da UJC, unanimemente o
Congresso aprovou uma política pioneira de incentivo a formação de
quadros mulheres em nossa organização. Também reconhecemos a urgência de
aprofundarmos o debate classista sobre o movimento LGBT, assim, a
construção da nova frente do PCB para intervir nestes movimentos será de
vital importância para a UJC aprofundar suas elaborações, afinal, o
objetivo da real libertação da humanidade também perpassa pela superação
de todas as opressões que hoje são subordinadas aos modos de produção
capitalista.
Estas são algumas das decisões que irão guiar a UJC nos próximos dois
anos. A reestruturação revolucionária para a construção do poder
popular será o grande desafio. Crescer e popularizar a juventude
comunista está em consonância com a formação de uma grande escola de
formação de comunistas para o Partido Comunista Brasileiro. Este é o
grande objetivo que deverá ser cumprido para que UJC se torne um sonho
viável para os milhares de jovens rebeldes Brasil afora.
Acima de tudo, o VII Congresso da UJC reforçou o que há de melhor
dentro da rica tradição comunista. Reforçou o vínculo com o PCB e a
alegria dos jovens em ter encontrado nas lutas, no estudo das
experiências revolucionárias e do marxismo leninismo, a melhor forma
racional e humana de canalizar suas rebeldias, inquietudes e revolta
contra a injustiça. A conjuntura pede a formação de uma juventude
revolucionária, plural, disciplinada, formada nas lutas e com sede de
estudar. A Juventude Comunista, sem dúvida alguma, deu passos
significativos na construção deste papel. E com paciência e ousadia irá
cumprir seus propósitos!
Viva o PCB!
Viva a UJC!
Viva o Internacionalismo Proletário!
Brasil Maio 2015
Coordenação Nacional da União da Juventude Comunista
Link: http://ujc.org.br/ujc/?p=1792
20/05/2015
Etnografia da elite soteropolitana. Vôo São Paulo-Salvador.
Por Maíra Kubíc Mano*
"-- Professora da UFBA, é? Ah, é uma ótima universidade. Meu filho tentou entrar duas vezes e não conseguiu por causa dos cotistas. E isso que ele estudou nas melhores escolas. Esses cotistas, depois que entram não conseguem acompanhar o curso".
Contra-argumentei.
"-- Já passou o Carnaval aqui? Não? Olhe, fique dentro da corda ou do camarote. Dizem que é preconceito, mas é que eles [os negros e pobres!] estão sempre envolvidos em confusão."
Contra-argumentei.
"-- A Bahia teve um ótimo governador. ACM. Ô tempo bom".
Aí não deu mais. Agradeci a Oxalá pela porta aberta do avião e a possibilidade de sair correndo.
* Maíra é Doutora em Ciências Sociais, docente da UFBA e escreve na Carta Capital.
"-- Professora da UFBA, é? Ah, é uma ótima universidade. Meu filho tentou entrar duas vezes e não conseguiu por causa dos cotistas. E isso que ele estudou nas melhores escolas. Esses cotistas, depois que entram não conseguem acompanhar o curso".
Contra-argumentei.
"-- Já passou o Carnaval aqui? Não? Olhe, fique dentro da corda ou do camarote. Dizem que é preconceito, mas é que eles [os negros e pobres!] estão sempre envolvidos em confusão."
Contra-argumentei.
"-- A Bahia teve um ótimo governador. ACM. Ô tempo bom".
Aí não deu mais. Agradeci a Oxalá pela porta aberta do avião e a possibilidade de sair correndo.
* Maíra é Doutora em Ciências Sociais, docente da UFBA e escreve na Carta Capital.
Luta contra fascismo é também a luta contra o capitalismo
Partido Comunista da Grécia - KKE
Em 5 de maio de 2015, na região de Donbass, ocorreu um encontro de partidos e organizações comunistas para trocar opiniões acerca da situação que está se formando na região sudeste da Ucrânia e das tarefas dos comunistas.
O encontro ocorreu a convite do Partido Comunista Operário da Rússia e
da Organização Operária Comunista de Lugansk, onde participaram também o
Partido Comunista de Donetsk, partidos comunistas e operários de
algumas repúblicas da antiga URSS, assim como representantes do KKE e do
Partido Comunista (Itália). O KKE foi representado por Elisseos Vagenas, membro do CC do
KKE e chefe da Seção de Relações Internacionais do CC do KKE. A seguir,
apresentamos a intervenção do KKE no encontro de partidos comunistas em
Donbass.
Nas vésperas do 70° aniversário da Vitória Antifascista
“Agradecemos muito o convite para participar deste encontro de partidos comunistas e queremos expressar, em primeiro lugar, nossa solidariedade com os comunistas da região que atuam em condições particularmente difíceis e sem precedentes. Nossa presença aqui é uma demonstração prática de nossa solidariedade.
O encontro de hoje ocorre entre duas datas importantes: o primeiro de maio, o dia internacional da classe trabalhadora, que está vinculado com as lutas dos trabalhadores por seus direitos e pelo poder político, e por outro lado, poucos dias antes do 9 de maio que, este ano, comemora o 70° aniversário do fim da II Guerra Mundial e da Vitória Antifascista dos Povos.
Há algumas décadas, quem poderia imaginar que aqui, no território da antiga URSS, os trabalhadores perderiam as grandes conquistas sociais como o trabalho com direitos para todos, a educação gratuita, a atenção sanitária gratuita, a seguridade social, a certeza pelo dia seguinte e muito mais?
Há algumas décadas, quem poderia imaginar que aqui, nestas áreas, se retornaria a uma época em que os parlamentos proibiriam a difusão dos ideais e dos símbolos comunistas, poucos dias antes do Primeiro de Maio e do 70° aniversário da Vitória Antifascista? Quem poderia esperar que estaríamos aqui, nesta zona, onde soariam novamente os canhões e as armas automáticas e tanto sangue seria derramado?
Quem esperava que forças abertamente fascistas desfilariam em Kiev, derrubando os monumentos soviéticos, e forças similares da Rússia e de outros países da Europa celebrariam um Congresso em Leningrado com as forças reacionárias mudando seu nome para “São Petersburgo”?
A respeito da superestimação dos resultados da II Guerra Mundial
Durante muitos anos, a opinião errônea de que a Vitória Antifascista na II Guerra mudou decisivamente a correlação de forças mundial entre as forças do capital e do trabalho, prevalecia inclusive nas fileiras do movimento comunista internacional. Isto se baseava na vitória da URSS, no surgimento dos estados socialistas da Europa oriental, na vitória da revolução da China, na formação de novos estados, nos anos 1950-1960 na Ásia, África e no Oriente Médio, que romperam as cadeias do sistema colonial e estabeleceram relações econômicas, militares e políticas entre a URSS e estes estados.
Supervalorizou-se, pois, a correlação de forças internacional e considerou-se que ela estava a favor da URSS e dos países socialistas. De fato, isto foi alcançado mediante a obtenção de certas conquistas tecnológicas, como o arsenal nuclear e os mísseis intercontinentais. Em princípios dos anos 60, A. Gromyko, Ministro de Assuntos Exteriores da URSS, de 1957-1985, e B.Ponomariov, membro do Birô Político do PCUS e responsável pela Seção de Relações Internacionais do PCUS de 1955-1986, avaliaram que “a construção de mísseis e foguetes espaciais de alta precisão, o lançamento dos primeiros satélites e o envio de um foguete à lua, tudo isso demonstra as grandes conquistas do país soviético nas esferas importantíssimas das ciências e da tecnologia moderna e, entre eles, a ciência militar. A correlação de forças estratégica mudou a favor do campo socialista”Não existe poder “esquerda”, “patriótico”, “antifascista” intermediário.
Nosso partido expressa sua solidariedade com a luta dos trabalhadores em Donbass, na Ucrânia em geral, e considera que esta luta contra o fascismo, pela defesa dos direitos trabalhistas e as conquistas populares não deve ser separada da luta contra os monopólios, contra a exploração capitalista e seu poder, não deve cair em aliança com as forças burguesas e oportunistas que tentam salvar a forma parlamentar da ditadura capitalista. Deve focar no objetivo do poder trabalhador sem vacilações; não deve mudar a linha e o conteúdo do objetivo da Aliança Popular como aliança social em direção antimonopolista-anticapitalista de luta, como oposição operária e popular contra o poder burguês. Apenas desta maneira a luta popular pode salvaguardar sua perspectiva.
Isto não é uma questão de correlação de forças, mas uma questão que surge da atualidade e da necessidade do socialismo, do fato de estarmos na época de transição do capitalismo para o socialismo, inaugurada pela Grande Revolução Socialista de Outubro. Apesar da derrocada contrarrevolucionária, o caráter de nossa época não mudou, porque continuam existindo a contradição fundamental do capitalismo entre o capital e o trabalho, continua existindo todos os impasses sociais do capitalismo. A única solução é a queda revolucionária do capitalismo. É claro que precisamos considerar que a correlação de forças hoje em dia é muito negativa, porém não para renunciar às tarefas do partido comunista, mas para melhorar nossos argumentos e tática que estão indissoluvelmente vinculados à nossa estratégia.
Sobre a postura dos comunistas em condições de aprofundamento das contradições interimperialistas
Hoje em particular, a crise econômica aprofundou os antagonismos, as contradições entre os estados capitalistas e as diversas alianças imperialistas, que se colocam cada vez mais agressivas contra os povos com a finalidade de reforçar sua posição geopolítica, a distribuição de mercados, o controle dos recursos e das rotas de transporte de energia. Portanto, é de grande importância que existam forças comunistas, como era o partido de Lenin, que não se alinharão com nenhuma potência imperialista. Estas forças estarão na linha de frente na luta pelos direitos trabalhistas e populares, contra a intimidação fascista e a guerra imperialista, contra os monopólios e o capitalismo. Forças que não vão cair na “armadilha” de apoiar uma potência imperialista, independentemente dos pretextos, ou no engano do pacifismo. Porque seguem sendo vigentes as posições de Lenin, que dizia que “‘as consignas de pacifismo, de desarmamento internacional nas condições do capitalismo, dos tribunais de arbitragem, etc. são mais que uma utopia reacionária, são um engano aberto dos trabalhadores cujo objetivo é desarmar o proletariado e distraí-lo de sua tarefa de desarmar os exploradores.
Apenas a revolução proletária, comunista, pode tirar a humanidade do beco sem saída que o imperialismo e as guerras imperialistas criaram. Sejam quais forem as dificuldades da revolução e os possíveis revezes temporários, ou as ondas da contrarrevolução, a vitória final do proletariado é inevitável”
Tradução do Partido Comunista Brasileiro - PCB.
Em 5 de maio de 2015, na região de Donbass, ocorreu um encontro de partidos e organizações comunistas para trocar opiniões acerca da situação que está se formando na região sudeste da Ucrânia e das tarefas dos comunistas.
O encontro ocorreu a convite do Partido Comunista Operário da Rússia e
da Organização Operária Comunista de Lugansk, onde participaram também o
Partido Comunista de Donetsk, partidos comunistas e operários de
algumas repúblicas da antiga URSS, assim como representantes do KKE e do
Partido Comunista (Itália). O KKE foi representado por Elisseos Vagenas, membro do CC do
KKE e chefe da Seção de Relações Internacionais do CC do KKE. A seguir,
apresentamos a intervenção do KKE no encontro de partidos comunistas em
Donbass.
Nas vésperas do 70° aniversário da Vitória Antifascista
“Agradecemos muito o convite para participar deste encontro de partidos comunistas e queremos expressar, em primeiro lugar, nossa solidariedade com os comunistas da região que atuam em condições particularmente difíceis e sem precedentes. Nossa presença aqui é uma demonstração prática de nossa solidariedade.
O encontro de hoje ocorre entre duas datas importantes: o primeiro de maio, o dia internacional da classe trabalhadora, que está vinculado com as lutas dos trabalhadores por seus direitos e pelo poder político, e por outro lado, poucos dias antes do 9 de maio que, este ano, comemora o 70° aniversário do fim da II Guerra Mundial e da Vitória Antifascista dos Povos.
Há algumas décadas, quem poderia imaginar que aqui, no território da antiga URSS, os trabalhadores perderiam as grandes conquistas sociais como o trabalho com direitos para todos, a educação gratuita, a atenção sanitária gratuita, a seguridade social, a certeza pelo dia seguinte e muito mais?
Há algumas décadas, quem poderia imaginar que aqui, nestas áreas, se retornaria a uma época em que os parlamentos proibiriam a difusão dos ideais e dos símbolos comunistas, poucos dias antes do Primeiro de Maio e do 70° aniversário da Vitória Antifascista? Quem poderia esperar que estaríamos aqui, nesta zona, onde soariam novamente os canhões e as armas automáticas e tanto sangue seria derramado?
Quem esperava que forças abertamente fascistas desfilariam em Kiev, derrubando os monumentos soviéticos, e forças similares da Rússia e de outros países da Europa celebrariam um Congresso em Leningrado com as forças reacionárias mudando seu nome para “São Petersburgo”?
A respeito da superestimação dos resultados da II Guerra Mundial
Durante muitos anos, a opinião errônea de que a Vitória Antifascista na II Guerra mudou decisivamente a correlação de forças mundial entre as forças do capital e do trabalho, prevalecia inclusive nas fileiras do movimento comunista internacional. Isto se baseava na vitória da URSS, no surgimento dos estados socialistas da Europa oriental, na vitória da revolução da China, na formação de novos estados, nos anos 1950-1960 na Ásia, África e no Oriente Médio, que romperam as cadeias do sistema colonial e estabeleceram relações econômicas, militares e políticas entre a URSS e estes estados.
Supervalorizou-se, pois, a correlação de forças internacional e considerou-se que ela estava a favor da URSS e dos países socialistas. De fato, isto foi alcançado mediante a obtenção de certas conquistas tecnológicas, como o arsenal nuclear e os mísseis intercontinentais. Em princípios dos anos 60, A. Gromyko, Ministro de Assuntos Exteriores da URSS, de 1957-1985, e B.Ponomariov, membro do Birô Político do PCUS e responsável pela Seção de Relações Internacionais do PCUS de 1955-1986, avaliaram que “a construção de mísseis e foguetes espaciais de alta precisão, o lançamento dos primeiros satélites e o envio de um foguete à lua, tudo isso demonstra as grandes conquistas do país soviético nas esferas importantíssimas das ciências e da tecnologia moderna e, entre eles, a ciência militar. A correlação de forças estratégica mudou a favor do campo socialista”Não existe poder “esquerda”, “patriótico”, “antifascista” intermediário.
Nosso partido expressa sua solidariedade com a luta dos trabalhadores em Donbass, na Ucrânia em geral, e considera que esta luta contra o fascismo, pela defesa dos direitos trabalhistas e as conquistas populares não deve ser separada da luta contra os monopólios, contra a exploração capitalista e seu poder, não deve cair em aliança com as forças burguesas e oportunistas que tentam salvar a forma parlamentar da ditadura capitalista. Deve focar no objetivo do poder trabalhador sem vacilações; não deve mudar a linha e o conteúdo do objetivo da Aliança Popular como aliança social em direção antimonopolista-anticapitalista de luta, como oposição operária e popular contra o poder burguês. Apenas desta maneira a luta popular pode salvaguardar sua perspectiva.
Isto não é uma questão de correlação de forças, mas uma questão que surge da atualidade e da necessidade do socialismo, do fato de estarmos na época de transição do capitalismo para o socialismo, inaugurada pela Grande Revolução Socialista de Outubro. Apesar da derrocada contrarrevolucionária, o caráter de nossa época não mudou, porque continuam existindo a contradição fundamental do capitalismo entre o capital e o trabalho, continua existindo todos os impasses sociais do capitalismo. A única solução é a queda revolucionária do capitalismo. É claro que precisamos considerar que a correlação de forças hoje em dia é muito negativa, porém não para renunciar às tarefas do partido comunista, mas para melhorar nossos argumentos e tática que estão indissoluvelmente vinculados à nossa estratégia.
Sobre a postura dos comunistas em condições de aprofundamento das contradições interimperialistas
Hoje em particular, a crise econômica aprofundou os antagonismos, as contradições entre os estados capitalistas e as diversas alianças imperialistas, que se colocam cada vez mais agressivas contra os povos com a finalidade de reforçar sua posição geopolítica, a distribuição de mercados, o controle dos recursos e das rotas de transporte de energia. Portanto, é de grande importância que existam forças comunistas, como era o partido de Lenin, que não se alinharão com nenhuma potência imperialista. Estas forças estarão na linha de frente na luta pelos direitos trabalhistas e populares, contra a intimidação fascista e a guerra imperialista, contra os monopólios e o capitalismo. Forças que não vão cair na “armadilha” de apoiar uma potência imperialista, independentemente dos pretextos, ou no engano do pacifismo. Porque seguem sendo vigentes as posições de Lenin, que dizia que “‘as consignas de pacifismo, de desarmamento internacional nas condições do capitalismo, dos tribunais de arbitragem, etc. são mais que uma utopia reacionária, são um engano aberto dos trabalhadores cujo objetivo é desarmar o proletariado e distraí-lo de sua tarefa de desarmar os exploradores.
Apenas a revolução proletária, comunista, pode tirar a humanidade do beco sem saída que o imperialismo e as guerras imperialistas criaram. Sejam quais forem as dificuldades da revolução e os possíveis revezes temporários, ou as ondas da contrarrevolução, a vitória final do proletariado é inevitável”
Tradução do Partido Comunista Brasileiro - PCB.
18/05/2015
Crise econômica e consequências sócio-políticas
Estes dias estava a me deparar com algumas foto-mensagens tétricas de conteúdo absolutamente simplista de página de teor fascista no Facebook. Ao notar que aquele esquálido material já tinha sido compartilhado por quase 200 mil pessoas, com mais de 100 mil curtidas, bateu-me de forma abrupta um sentimento de desespero consubstanciado com impotência. É impossível lutar contra isso, pensei desolado.
E calcado em três aspectos que me fizeram refletir: a discussão sobre direitos de minorias requer alguma sofisticação teórica. Não é de fácil consecução, por exemplo, versar sobre as consequências do racismo e as melhores formas de começar a combatê-lo ainda dentro do Estado burguês, com a sociedade dividida em classes e todas as contradições daí decorrentes; em contrapartida os contra-argumentos (se é que os podemos chamar assim) como o fascistóide mensurado acima surfam no senso-comum, no discurso pronto que, simplório, se encerra em si mesmo; e toda a tradição conservadora da formação dos brasileiros que de uma maneira ou de outra induzem a opinião pública, calcada também em educação formal defasada, a aceitarem com facilidade -- e prazer -- esse tipo de retórica chula conservadora e que não apenas legitima o status quo como ainda insere uma série de juízos que são anteriores -- e muito piores -- que aqueles defendidos ao menos textualmente em nossa Constituição burgo-liberal.
Feita esta breve ponderação, comecei a me recompor. É evidentemente a luta, organizada, em partidos anti-capitalistas, a melhor forma de atuação da classe trabalhadora não apenas em busca de uma sociedade igualitária, mas também na defesa daquilo que duramente foi conquistado e integrado ao Estado de direito burguês.
Histórico de violência
Ainda a respeito desses discursos de ódio, fascistóides e que cada vez mais passam a ser legitimados de modo oficioso pela sociedade como se se limitassem a retórica idiossincrática, relativizando-se a objetividade dos fatos, uma das mazelas pós-modernas, é preciso compreender a formação social brasileira, que é, grosso modo, concebida a partir da violência: primeiro a violência do colonizador sobre o colonizado; da metrópole contra a colônia; do senhor contra o escravo; do homem contra a mulher; do catolicismo contra as demais manifestações religiosas; e por aí vai até chegarmos em um cenário capitalista onde a exploração e a violência tomem características típicas da luta de classes, a assentar-se nela.
Esta compreensão, ainda que aqui apenas esboçada sem a profundidade exigida, encerra o mito do brasileiro como um indivíduo amoroso, festivo, sempre alegre. Estas características em verdade dizem muito mais respeito a uma construção verticalizada, imposta, que calcada em estereótipos das etnias africanas que compõem a cultura brasileira e na tentativa de amainar contradições sempre muito vívidas no Brasil foram recebidas como verdade pelo imaginário popular, seja nacional ou internacionalmente, a ser o samba na primeira metade do século XX e posteriormente o futebol a grande plataforma de propaganda dessas idéias que carregam pouca verossimilhança.
Estado autoritário e pouca participação popular
Outra característica desse fenômeno é como ele é encarado pela população em geral, assumido como verdadeiro mesmo a contrastar com a realidade vivida: só ano passado mais de 50 mil homicídios foram cometidos no país e a violência é assistida em telejornais como forma de entretenimento, seja matinal, noturno ou mesmo em pleno horário de almoço.
O nosso homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda, que age com o coração e ignora a racionalidade, é assumido paradoxal e erroneamente como bom, educado, prestativo. E passivo. E é um fenômeno que só pode ser compreendido a partir da imensa distância do Estado, autoritário, de modelo historicamente prussiano, para a sociedade civil e as classes sociais que, massivamente combatidas, exploradas e enfraquecidas, não tem aderência à ele.
É diante deste fenômeno que o Estado e seus órgãos alinhados -- na época da autocracia burgo-militar as Organizações Globo e a imprensa, por exemplo -- ganham grande autonomia em relação às massas e poder para determinar a superestrutura.
Destarte, a construção simbólica do brasileiro torna-se bastante alheia à realidade. E pior: sem direito à contestação. As Organizações Globo, por meio da Rede Globo e das telenovelas, por exemplo, ícone máximo de propaganda e discussão da brasilidade por meios de comunicação de massa, durante décadas constituiu uma construção da narrativa em que o homossexual, o negro, a mulher e, por fim, os trabalhadores conviviam com certa harmonia com personagens hostis e de perfil mainstream.
Mesmo em folhetins do final dos anos 80 e metade dos anos 90 em que os autores assumiam críticas sociais e discursos políticos (veja esta maravilhosa crítica de O Rei do Gado), as personagens em geral apresentavam tais narrativas de modo sutil ou com ênfase reformista. A sociedade com base em hierarquia do manda-e-obedece; do que tem-mais-e-o-tem-menos nunca apareceram como ponto fulcral de crítica cuja qual deveria ser destruída.
A democratização, o poder do monopólio do Estado e seus órgãos oficiais
A partir dos anos 90, da imersão de um capitalismo mais de mercado do que de Estado, este foi a perder aos poucos o monopólio que detinha da compreensão e da discussão política. Isto fica mais evidente em termos midiáticos com a perda da audiência da Globo, que chega nos fins dos anos 90 a ter que dividir a liderança de audiência com SBT em algumas oportunidades -- algo que foi a se tornar cada vez mais comum.
E a Globo é um capítulo muito peremptório dentro dessa concepção de construção do imaginário nacional. Primeiramente porque ela é um projeto da autocracia burgo-militar (64-85) que nasce já um ano depois do golpe e tem como objetivo ser instrumento oficial de propaganda, embora surja privada e com ênfase comercial (ainda que com vasto investimento público e leis que a permitiram controlar o mercado). Isto a distingue de emissoras como a BBC no Reino Unido ou ARD e ZDF na Alemanha.
No entanto, pela falta de concorrência, a emissora pôde durante muito tempo se calcar em uma programação que fugia do quotidiano e do gosto da maioria da população, a negar inclusive as diferenças regionais marcantes que ajudam a conformar o Brasil. À essa postura, um tanto que alheia à barbárie do dia a dia, se convencionou a chamar "padrão Globo de qualidade", por ter qualidade de produção de ponta e um conteúdo não tão miserável -- embora ruim e pobre -- que dialogava com todas as classes sociais.
Isto passou a ser um entrave conforme a Globo e, atualmente, a televisão deixavam de ter monopólio sobre o entretenimento. E isto se deu em três momentos: fortalecimento da concorrência na tevê aberta que conseguiu puxar a audiência dos mais pobres com programação sensacionalista, donde se destaca o SBT nos anos 90; com a fuga da classe média para a tevê por assinatura; e por fim com a internet.
Internet: mais liberdade, mais horizontalidade. E a realidade nua e crua
Mesmo as Organizações Globo tendo predomínio em todos os setores de mídia no país, muito em conta das leis estatais que datam do tempo da autocracia burgo-militar e que lhe concede privilégios e limita a concorrência, com a internet a discussão é muito mais horizontal. Os meios de comunicação burgueses perderam a capacidade de delimitar completamente a discussão pública -- ainda que tenham ainda enorme capacidade de influenciá-la.
Isso pôde ser observado muito claramente com as manifestações de Junho de 2013, onde a imprensa burguesa, uníssona, tratou de condenar e criminalizar o movimento como de praxe e teve de rever sua postura para não ser deslegitimada por completo e perder a possibilidade de influenciar, algo que se deu pela força da internet.
Os exemplos negativos também existem e abundam. E o exemplo citado no intróito do texto não é claramente o único. De modo mais sentido, talvez, caiba lembrar da última eleição presidencial, quando uma certa onda azul tanto no Facebook, mas principalmente no WhatsApp inundou de mentiras e factóides as redes e certamente foi responsável pela votação gorda do candidato do PSDB Aécio Neves.
Da eleição pra cá esses instrumentos, que são utilizados por pessoas que têm menos compromisso social e com a verdade que os órgãos de imprensa tradicionais da burguesia, têm se direcionado para o ataque contra as bandeiras progressistas, dos Direitos Humanos e da esquerda. Com enorme adesão por toda uma estrada já previamente asfaltada pela formação conservadora, mas com a ajuda de um sistema educacional ruim -- e se verifica que não apenas o público -- e com o incremento da raiva e do ódio sempre presentes. Algo que os órgãos oficiais da imprensa burguesa tentaram dissuadir em sua força e contundência, mas que a televisão já há algum tempo em nome de pontos no Ibope começava a abrir espaço com Datenas, Rezendes, Sheherazades et caterva.
O amálgama desses fatores, todos eles agora a encontrar algum grau de coesão com a crise econômica capitalista, explicam em boa parte toda a pletora de ódio, raiva e discursos que deslegitimam a humanidade do outro; um proto-fascismo que aqui em São Paulo, pelo menos, já não tem nem mesmo o medo de mostrar a cara e que desmistifica a idéia de um Brasil sem conflitos, harmonioso e apto a acolher bem o outro. Como assevera Manuel Castells aqui, isto é uma falácia. Uma falácia historicamente construída.
E calcado em três aspectos que me fizeram refletir: a discussão sobre direitos de minorias requer alguma sofisticação teórica. Não é de fácil consecução, por exemplo, versar sobre as consequências do racismo e as melhores formas de começar a combatê-lo ainda dentro do Estado burguês, com a sociedade dividida em classes e todas as contradições daí decorrentes; em contrapartida os contra-argumentos (se é que os podemos chamar assim) como o fascistóide mensurado acima surfam no senso-comum, no discurso pronto que, simplório, se encerra em si mesmo; e toda a tradição conservadora da formação dos brasileiros que de uma maneira ou de outra induzem a opinião pública, calcada também em educação formal defasada, a aceitarem com facilidade -- e prazer -- esse tipo de retórica chula conservadora e que não apenas legitima o status quo como ainda insere uma série de juízos que são anteriores -- e muito piores -- que aqueles defendidos ao menos textualmente em nossa Constituição burgo-liberal.
Feita esta breve ponderação, comecei a me recompor. É evidentemente a luta, organizada, em partidos anti-capitalistas, a melhor forma de atuação da classe trabalhadora não apenas em busca de uma sociedade igualitária, mas também na defesa daquilo que duramente foi conquistado e integrado ao Estado de direito burguês.
Histórico de violência
Ainda a respeito desses discursos de ódio, fascistóides e que cada vez mais passam a ser legitimados de modo oficioso pela sociedade como se se limitassem a retórica idiossincrática, relativizando-se a objetividade dos fatos, uma das mazelas pós-modernas, é preciso compreender a formação social brasileira, que é, grosso modo, concebida a partir da violência: primeiro a violência do colonizador sobre o colonizado; da metrópole contra a colônia; do senhor contra o escravo; do homem contra a mulher; do catolicismo contra as demais manifestações religiosas; e por aí vai até chegarmos em um cenário capitalista onde a exploração e a violência tomem características típicas da luta de classes, a assentar-se nela.
Esta compreensão, ainda que aqui apenas esboçada sem a profundidade exigida, encerra o mito do brasileiro como um indivíduo amoroso, festivo, sempre alegre. Estas características em verdade dizem muito mais respeito a uma construção verticalizada, imposta, que calcada em estereótipos das etnias africanas que compõem a cultura brasileira e na tentativa de amainar contradições sempre muito vívidas no Brasil foram recebidas como verdade pelo imaginário popular, seja nacional ou internacionalmente, a ser o samba na primeira metade do século XX e posteriormente o futebol a grande plataforma de propaganda dessas idéias que carregam pouca verossimilhança.
Estado autoritário e pouca participação popular
Outra característica desse fenômeno é como ele é encarado pela população em geral, assumido como verdadeiro mesmo a contrastar com a realidade vivida: só ano passado mais de 50 mil homicídios foram cometidos no país e a violência é assistida em telejornais como forma de entretenimento, seja matinal, noturno ou mesmo em pleno horário de almoço.
O nosso homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda, que age com o coração e ignora a racionalidade, é assumido paradoxal e erroneamente como bom, educado, prestativo. E passivo. E é um fenômeno que só pode ser compreendido a partir da imensa distância do Estado, autoritário, de modelo historicamente prussiano, para a sociedade civil e as classes sociais que, massivamente combatidas, exploradas e enfraquecidas, não tem aderência à ele.
É diante deste fenômeno que o Estado e seus órgãos alinhados -- na época da autocracia burgo-militar as Organizações Globo e a imprensa, por exemplo -- ganham grande autonomia em relação às massas e poder para determinar a superestrutura.
Destarte, a construção simbólica do brasileiro torna-se bastante alheia à realidade. E pior: sem direito à contestação. As Organizações Globo, por meio da Rede Globo e das telenovelas, por exemplo, ícone máximo de propaganda e discussão da brasilidade por meios de comunicação de massa, durante décadas constituiu uma construção da narrativa em que o homossexual, o negro, a mulher e, por fim, os trabalhadores conviviam com certa harmonia com personagens hostis e de perfil mainstream.
Mesmo em folhetins do final dos anos 80 e metade dos anos 90 em que os autores assumiam críticas sociais e discursos políticos (veja esta maravilhosa crítica de O Rei do Gado), as personagens em geral apresentavam tais narrativas de modo sutil ou com ênfase reformista. A sociedade com base em hierarquia do manda-e-obedece; do que tem-mais-e-o-tem-menos nunca apareceram como ponto fulcral de crítica cuja qual deveria ser destruída.
A democratização, o poder do monopólio do Estado e seus órgãos oficiais
A partir dos anos 90, da imersão de um capitalismo mais de mercado do que de Estado, este foi a perder aos poucos o monopólio que detinha da compreensão e da discussão política. Isto fica mais evidente em termos midiáticos com a perda da audiência da Globo, que chega nos fins dos anos 90 a ter que dividir a liderança de audiência com SBT em algumas oportunidades -- algo que foi a se tornar cada vez mais comum.
E a Globo é um capítulo muito peremptório dentro dessa concepção de construção do imaginário nacional. Primeiramente porque ela é um projeto da autocracia burgo-militar (64-85) que nasce já um ano depois do golpe e tem como objetivo ser instrumento oficial de propaganda, embora surja privada e com ênfase comercial (ainda que com vasto investimento público e leis que a permitiram controlar o mercado). Isto a distingue de emissoras como a BBC no Reino Unido ou ARD e ZDF na Alemanha.
No entanto, pela falta de concorrência, a emissora pôde durante muito tempo se calcar em uma programação que fugia do quotidiano e do gosto da maioria da população, a negar inclusive as diferenças regionais marcantes que ajudam a conformar o Brasil. À essa postura, um tanto que alheia à barbárie do dia a dia, se convencionou a chamar "padrão Globo de qualidade", por ter qualidade de produção de ponta e um conteúdo não tão miserável -- embora ruim e pobre -- que dialogava com todas as classes sociais.
Isto passou a ser um entrave conforme a Globo e, atualmente, a televisão deixavam de ter monopólio sobre o entretenimento. E isto se deu em três momentos: fortalecimento da concorrência na tevê aberta que conseguiu puxar a audiência dos mais pobres com programação sensacionalista, donde se destaca o SBT nos anos 90; com a fuga da classe média para a tevê por assinatura; e por fim com a internet.
Internet: mais liberdade, mais horizontalidade. E a realidade nua e crua
Mesmo as Organizações Globo tendo predomínio em todos os setores de mídia no país, muito em conta das leis estatais que datam do tempo da autocracia burgo-militar e que lhe concede privilégios e limita a concorrência, com a internet a discussão é muito mais horizontal. Os meios de comunicação burgueses perderam a capacidade de delimitar completamente a discussão pública -- ainda que tenham ainda enorme capacidade de influenciá-la.
Isso pôde ser observado muito claramente com as manifestações de Junho de 2013, onde a imprensa burguesa, uníssona, tratou de condenar e criminalizar o movimento como de praxe e teve de rever sua postura para não ser deslegitimada por completo e perder a possibilidade de influenciar, algo que se deu pela força da internet.
Os exemplos negativos também existem e abundam. E o exemplo citado no intróito do texto não é claramente o único. De modo mais sentido, talvez, caiba lembrar da última eleição presidencial, quando uma certa onda azul tanto no Facebook, mas principalmente no WhatsApp inundou de mentiras e factóides as redes e certamente foi responsável pela votação gorda do candidato do PSDB Aécio Neves.
Da eleição pra cá esses instrumentos, que são utilizados por pessoas que têm menos compromisso social e com a verdade que os órgãos de imprensa tradicionais da burguesia, têm se direcionado para o ataque contra as bandeiras progressistas, dos Direitos Humanos e da esquerda. Com enorme adesão por toda uma estrada já previamente asfaltada pela formação conservadora, mas com a ajuda de um sistema educacional ruim -- e se verifica que não apenas o público -- e com o incremento da raiva e do ódio sempre presentes. Algo que os órgãos oficiais da imprensa burguesa tentaram dissuadir em sua força e contundência, mas que a televisão já há algum tempo em nome de pontos no Ibope começava a abrir espaço com Datenas, Rezendes, Sheherazades et caterva.
O amálgama desses fatores, todos eles agora a encontrar algum grau de coesão com a crise econômica capitalista, explicam em boa parte toda a pletora de ódio, raiva e discursos que deslegitimam a humanidade do outro; um proto-fascismo que aqui em São Paulo, pelo menos, já não tem nem mesmo o medo de mostrar a cara e que desmistifica a idéia de um Brasil sem conflitos, harmonioso e apto a acolher bem o outro. Como assevera Manuel Castells aqui, isto é uma falácia. Uma falácia historicamente construída.
14/05/2015
O louco mundo do futebol
Como podem três atacantes valerem mais que toda a equipe adversária? E não. Eu não me refiro a Corinthians e Guaraní, cujo apenas os salários de dois reservas do primeiro seriam suficientes pra bancar todos os jogadores do time paraguaio. Eu me refiro a Barcelona e Juventus, finalistas da Liga dos Campeões da UEFA.
E a Juventus, mensure-se, não é nenhum time pobre. É hoje de forma disparada o time mais rico do futebol italiano. E mesmo assim tem uma equipe que não vale três jogadores do time rival...
Esse é o mundo louco do futebol. Onde gasta-se demais para chegar no mesmo lugar -- às vezes nem isso, caso do Corinthians, eliminado agora e que verá o time paraguaio seguir caminho na competição pela televisão.
O mundo à parte do futebol, assim como da política burguesa e dos grandes monopólios, preso numa bolha capitalista enquanto as pessoas vivem a sofrer as consequências de uma terrível crise, é insustentável. E um verdadeiro acinte com todos nós.
A primeira reforma a ser feita se se quiser resgatar o futebol brasileiro é equiparar os salários dos jogadores daqui aos que atuam nos outros países da América do Sul. É injustificável o Corinthians, São Paulo, Cruzeiro, Inter e Atlético terem folhas salariais que são o dobro, o triplo ou até quatro vezes maiores que de times da Argentina, Uruguai, Chile e México. E para ter desempenho parecido.
E uma vez todos endividados, recorrem ao governo pra pegar verbas ou receber perdões com um dinheiro que deveria ser utilizado para coisas de fato importantes e que todos estamos carecas de saber a importância.
E para a Europa a mesma coisa: os governos da Catalunha e de Madrid têm coisas muito mais importantes do que facilitar gastos exorbitantes das suas equipes oficiais. E a UEFA precisa urgentemente rever essa disparidade econômica que faz da Uefa Champions League um oligopólio em que sempre os mesmos é que estão lá, matando pouco a pouco a maior graça do futebol, que é a imprevisibilidade.
E é por ela que torcerei pela Juventus na grande final dia 6 de Junho em Berlim. E como asseverou Mario Magalhães no tuíter "Tévez é o famélico diante do prato de comida. Ganso, o anoréxico. Tévez é sangue latino. Ganso, sangue de barata -que desperdício de talento''. E é pela Juve do Tévez, contra todos os prognósticos, é que apostarei.
E a Juventus, mensure-se, não é nenhum time pobre. É hoje de forma disparada o time mais rico do futebol italiano. E mesmo assim tem uma equipe que não vale três jogadores do time rival...
Esse é o mundo louco do futebol. Onde gasta-se demais para chegar no mesmo lugar -- às vezes nem isso, caso do Corinthians, eliminado agora e que verá o time paraguaio seguir caminho na competição pela televisão.
O mundo à parte do futebol, assim como da política burguesa e dos grandes monopólios, preso numa bolha capitalista enquanto as pessoas vivem a sofrer as consequências de uma terrível crise, é insustentável. E um verdadeiro acinte com todos nós.
A primeira reforma a ser feita se se quiser resgatar o futebol brasileiro é equiparar os salários dos jogadores daqui aos que atuam nos outros países da América do Sul. É injustificável o Corinthians, São Paulo, Cruzeiro, Inter e Atlético terem folhas salariais que são o dobro, o triplo ou até quatro vezes maiores que de times da Argentina, Uruguai, Chile e México. E para ter desempenho parecido.
E uma vez todos endividados, recorrem ao governo pra pegar verbas ou receber perdões com um dinheiro que deveria ser utilizado para coisas de fato importantes e que todos estamos carecas de saber a importância.
E para a Europa a mesma coisa: os governos da Catalunha e de Madrid têm coisas muito mais importantes do que facilitar gastos exorbitantes das suas equipes oficiais. E a UEFA precisa urgentemente rever essa disparidade econômica que faz da Uefa Champions League um oligopólio em que sempre os mesmos é que estão lá, matando pouco a pouco a maior graça do futebol, que é a imprevisibilidade.
E é por ela que torcerei pela Juventus na grande final dia 6 de Junho em Berlim. E como asseverou Mario Magalhães no tuíter "Tévez é o famélico diante do prato de comida. Ganso, o anoréxico. Tévez é sangue latino. Ganso, sangue de barata -que desperdício de talento''. E é pela Juve do Tévez, contra todos os prognósticos, é que apostarei.
13/05/2015
Jornalismo no Brasil: o banditismo social acima das leis.
Há algum tempo eu estava a perceber-me um pouco irritado. Além do estresse natural da vida caótica nos grandes centros urbanos, outra situação estava a me chatear imensamente: as distorções as mais absurdas que ouvia, lia e via a partir da grande mídia, oligopólios controlados por seis famílias, algo em torno de 70% de todos os meios de comunicação no Brasil.
Pois eu simplesmente parei de acompanhar. Não dá pra assistir a Globo News e ver especialista-amigo do William Waack a falar que o petróleo e outros setores estratégicos do país deveriam ser privatizados quando nem mesmo nos EUA o Estado abre mão do controle dessas áreas. Não dá pra aguentar passivamente essas pessoas clamarem contra o monopólio de determinadas áreas estatais quando os próprios meios de comunicação nos quais trabalham -- e não como simples funcionários, mas porta-vozes dos donos -- formam um grande oligopólio em que as Organizações Globo, acima de todas as demais, têm plenos poderes sobre todo o mercado, vide a dificuldade de empresas do exterior se estabelecerem aqui (há várias leis do setor que datam da época da autocracia burgo-militar e que foram criadas exatamente para proteger as empresas da família Marinho).
É muita canalhice. Mas é uma canalhice suportável, digamos assim, pois são assuntos em que a reação pública não é direta.
O problema maior é quando essa imprensa vil resolve atacar diretamente setores mais fragilizados, como foi o caso daquela senhora com diploma de jornalista do SBT. Ou quando Rezendes, Datenas et caterva por míseros pontos no ibope clamam a população à barbárie como forma de resolver problemas que só existem por falta de questões básicas como boa educação pública, por exemplo.
Isso é insuportável. É uma verdadeira desgraça.
Foi por isso que simplesmente parei de ver essas coisas. São como um soco no estômago: você estuda anos para compreender melhor problemas que não são de simples resolução, e um fascistóide, a desconhecer as normas mais básicas de qualquer coisa, apresenta soluções simplistas e desumanas e é tratado ainda como "amigo do povo". Não é fácil.
Mas o banditismo social da grande mídia não surfa apenas no extremo do fascismo. Ele vai em várias áreas, como a que me deparei ontem ao passar pela Rádio CBN que fazia uma matéria sobre ato de motoristas em São Paulo. A jornalista com voz manhosa dizia: - A greve prejudicou (sim, não foi atingiu. Foi prejudicou, mesmo) não-sei-quantas-mil pessoas. Impediu que pessoas chegassem a tempo no trabalho, hospitais (Como ela sabe? Saiu perguntando pra cada um? Impedir é o mesmo que não deixar fazer. Não existe só ônibus pra se locomover em São Paulo). E para completar o roteiro conhecido, colocaram uma mulher alheia aos elementos mais básicos da nossa Constituição burgo-liberal pra comentar, a dizer que aquilo era uma vergonha, falta de respeito com o trabalhador e todas aquelas coisas de sempre. Tudo pra criminalizar o direito de greve, que está garantido na Constituição.
O que dizer diante de coisas como essa? É ou não uma atitude criminosa?
O jornalismo no Brasil, sobretudo o policial, econômico e social é essencialmente composto por mercenários que fazem o trabalho sujo para os donos das emissoras nas quais labutam. Muitos, inclusive, fazem com gosto. Tenho vários amigos jornalistas -- mais da área de esporte, mas alguns de outras áreas -- que contam como as redações tendem em 90% das vezes a convergir com a visão anti-povo de quem a controla. E como essa gente aplaude com ardor editoriais que convoquem a PM a reprimir e até a sequelar se for o caso -- vide 13 de Junho de 2013.
De onde concluo que é impossível pensar em um país melhor com essa turba, que fazem banditismo social, a ter poder de voz sem nenhum tipo de contestação. Essas pessoas são inimigas do povo, das bandeiras populares e de um mundo mais justo, igualitário e fraterno, onde a democracia seja um fato e não apenas um ideal distante restrito a normativas legais.
A grande imprensa é um covil de abutres. E como diria o hino dos trabalhadores: "se nos faltarem os abutres, não deixa o sol de fulgurar".
Pois eu simplesmente parei de acompanhar. Não dá pra assistir a Globo News e ver especialista-amigo do William Waack a falar que o petróleo e outros setores estratégicos do país deveriam ser privatizados quando nem mesmo nos EUA o Estado abre mão do controle dessas áreas. Não dá pra aguentar passivamente essas pessoas clamarem contra o monopólio de determinadas áreas estatais quando os próprios meios de comunicação nos quais trabalham -- e não como simples funcionários, mas porta-vozes dos donos -- formam um grande oligopólio em que as Organizações Globo, acima de todas as demais, têm plenos poderes sobre todo o mercado, vide a dificuldade de empresas do exterior se estabelecerem aqui (há várias leis do setor que datam da época da autocracia burgo-militar e que foram criadas exatamente para proteger as empresas da família Marinho).
É muita canalhice. Mas é uma canalhice suportável, digamos assim, pois são assuntos em que a reação pública não é direta.
O problema maior é quando essa imprensa vil resolve atacar diretamente setores mais fragilizados, como foi o caso daquela senhora com diploma de jornalista do SBT. Ou quando Rezendes, Datenas et caterva por míseros pontos no ibope clamam a população à barbárie como forma de resolver problemas que só existem por falta de questões básicas como boa educação pública, por exemplo.
Isso é insuportável. É uma verdadeira desgraça.
Foi por isso que simplesmente parei de ver essas coisas. São como um soco no estômago: você estuda anos para compreender melhor problemas que não são de simples resolução, e um fascistóide, a desconhecer as normas mais básicas de qualquer coisa, apresenta soluções simplistas e desumanas e é tratado ainda como "amigo do povo". Não é fácil.
Mas o banditismo social da grande mídia não surfa apenas no extremo do fascismo. Ele vai em várias áreas, como a que me deparei ontem ao passar pela Rádio CBN que fazia uma matéria sobre ato de motoristas em São Paulo. A jornalista com voz manhosa dizia: - A greve prejudicou (sim, não foi atingiu. Foi prejudicou, mesmo) não-sei-quantas-mil pessoas. Impediu que pessoas chegassem a tempo no trabalho, hospitais (Como ela sabe? Saiu perguntando pra cada um? Impedir é o mesmo que não deixar fazer. Não existe só ônibus pra se locomover em São Paulo). E para completar o roteiro conhecido, colocaram uma mulher alheia aos elementos mais básicos da nossa Constituição burgo-liberal pra comentar, a dizer que aquilo era uma vergonha, falta de respeito com o trabalhador e todas aquelas coisas de sempre. Tudo pra criminalizar o direito de greve, que está garantido na Constituição.
O que dizer diante de coisas como essa? É ou não uma atitude criminosa?
O jornalismo no Brasil, sobretudo o policial, econômico e social é essencialmente composto por mercenários que fazem o trabalho sujo para os donos das emissoras nas quais labutam. Muitos, inclusive, fazem com gosto. Tenho vários amigos jornalistas -- mais da área de esporte, mas alguns de outras áreas -- que contam como as redações tendem em 90% das vezes a convergir com a visão anti-povo de quem a controla. E como essa gente aplaude com ardor editoriais que convoquem a PM a reprimir e até a sequelar se for o caso -- vide 13 de Junho de 2013.
De onde concluo que é impossível pensar em um país melhor com essa turba, que fazem banditismo social, a ter poder de voz sem nenhum tipo de contestação. Essas pessoas são inimigas do povo, das bandeiras populares e de um mundo mais justo, igualitário e fraterno, onde a democracia seja um fato e não apenas um ideal distante restrito a normativas legais.
A grande imprensa é um covil de abutres. E como diria o hino dos trabalhadores: "se nos faltarem os abutres, não deixa o sol de fulgurar".
12/05/2015
Polêmicas insalubres
Como tempo no capitalismo é dinheiro -- e ainda vivemos na desgraça desse sistema, e precisamos trabalhar pra ganhar o nosso --, sem delongas o comentário da Genro e o chorume de uma personalidade do ramo das ciências:
E um detalhe importante: o intelectual acima não foi o único. Como ele, vários se solidarizaram com a atriz, que se transformou em símbolo de coragem por fazer aquilo que nunca nenhuma outra mulher fez: ter um filho. E com uma renda anual que supera o PIB de muito país mundo afora.
Sim, condição econômica não é o único fator exigido para se cuidar de uma criança. Mas é determinante. O mais determinante.
Viver e crescer no mundo em que vivemos com o mínimo amparo custa dinheiro. E não é pouco. Se isso vale para quem cuida de um cãozinho, um gatinho ou um coelho, imagine para quem vai educar uma criança...
Uma mãe que vive em bairros da classe trabalhadora, as ditas periferias, com 1, 2 salários mínimos, a ter de trabalhar, colocar seu filho em escolas públicas sucateadas, em ambientes de degradação humana, sob a mira da violência e de tudo o que há de pior fruto da desigualdade, é incomparavelmente uma pessoa de mais coragem -- e talvez com um pouco de irresponsabilidade -- que uma mulher que acumula uma fortuna capaz de ter três, quatro, cinco, cem babás pra cada filho.
Sabemos bem, porém, que essas revistas são voltadas para a imbecilização, o endeusamento de famosos, o fetichização da ostentação de riqueza e tudo aquilo que dialoga diretamente com um mundo em putrefação.
Mas não deixa de espantar que enquanto há milhares de mães por aí a fazer das tripas coração pra cuidar dos filhos, mesmo sob o preconceito da sociedade por serem mães solteiras, ou chutadas da casa dos pais, ou vítimas de violência por parte dos parceiros, uma mulher bilionária, exemplo de modelo de família de pote de margarina (aqui mais glamorizado) se torne símbolo de coragem.
Isto me lembra uma discussão que uma vez travei na graduação com um colega da área das exatas: Senna é um herói? E ele dizia que sim, pois ele representaria aos brasileiros andando a 300 por hora arriscando a vida.
Sim, pra andar em um carro de F1 naquela época era preciso coragem. Ele dizia representar os brasileiros e muitos se sentiam representados. Mas isso é um ato de heroísmo? Não me parece, definitivamente.
Angelina Jolie pode até ter desbravado medos, superado problemas e -- por que não? -- ser uma pessoa de coragem -- inclusive pra abdicar de tempo pra cuidar de crianças. Ser símbolo de coragem, no entanto, já é demais.
Mas vá ver o errado sou eu. Talvez a atriz seja a mais corajosa das mulheres; e as mulheres pobres, com todas as dificuldades supracitadas e tantas outras mais, tenham um pouquinho menos de coragem e bravura.
Talvez ter filhos vivendo nas periferias por aí não seja um ato de muita valentia e coragem, diariamente. E talvez devêssemos encarar com mais naturalidade quando esses filhos são mortos pela polícia por motivo fútil, como aconteceu com um rapaz de 16 anos, o Wallison, que estudava no colégio que eu fazia estágio (aqui a matéria: http://www.jornalnanet.com.br/noticias/6082/abordagem-da-gcm-termina-com-um-jovem-morto-em-itapecerica ) e que o policial, que cometeu o crime, está solto e ainda a trabalhar na corporação.
Será que um dia isso acontecerá com um filho da Angelina Jolie? Eu acho (e tomara) que não.
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