11/05/2015

O capitalismo venceu


 Acordo logo cedo, pois tenho de ir à labuta. Dia frio, modorrento, com o insuportável barulho de carro à residência adentrar sem permissão pedir e a sorrateiramente avisar: mais um dia difícil está para chegar.

 Vou à padaria e lá escuto alguns brotos a comentarem sobre futebol e causos do quotidiano enquanto a tevê, sintonizada na Globo, apresenta matérias sensacionalistas e factóides para chocar: um motorista perdeu o controle e bateu em um poste, afirma o apresentador. Enquanto espero o pão francês ser ensacolado, ouço exclamações. Muda a matéria: corrupção-não-sei-aonde-e-em-todo-lugar. E a platéia uma vez mais reage: - tudo ladrão! - essa merda não tem jeito!

 Enquanto tomo o rumo de casa, adentra um jovem de classe média, que interage: - Brasífilis! Bananolândia! Dou mais alguns passos, olho para trás, e vejo os mesmos senhores extasiados com a propaganda de carro que intercala a programação causuística do matinal global.

 Chego em casa, faço a refeição de modo apressado, uma vez que o ônibus sempre lotado e pronto para quebrar, eu não posso perder. Mas enquanto engulo o pão, dá tempo pra dar uma espiadela a mais na televisão. E lá está Miriam Leitão proclamando com base na leitura de manuais didáticos de economia mainstream o que o Estado burguês deve fazer para promover o bem-estar geral da população. Fosse apenas chulo, comento com meus botões, seria até razoável.

 Pego o ônibus, motorista mal-humorado, fila enorme na catraca. Há algo estranho. Não vejo o cobrador, que era um piadista que a nossa terrível manhã minimamente alegrava. Pergunto ao motorista que laconicamente responde: - Demitiram todos. Agora eu dou o troco.

 Estava explicado!

 O Governo do Estado de São Paulo que acabara de aumentar o preço da passagem, em contrapartida, para melhorar o serviço, demite um prestador de serviço. E fica o motorista incumbido de dirigir e passar o troco para aqueles que ainda não possuem o cartãozinho, o Ruim. É, eu vou ter de comprar o Ruim, concluo.

 Ao chegar no trabalho, todo mundo estressado, o porteiro clama pela aposentadoria, o mais jovem, seu assistente, pensa no feriado, e eu, não tão apressado, sinto-me contente em pensar que 12 horas depois, se nada de especial acontecer, como uma garoa, eu estarei novamente em casa, mesmo que exausto, acossado.

E todos os meus colegas desmotivados.

 Que vida dos diabos!

 Salas super-lotadas (com ou sem hífen?), crianças e adolescentes abandonados a própria sorte e estafados, falta de material para a consecução de um bom trabalho: bem-vindo à sala de aula no Estado de São Paulo.

 A Guerra Fria para o terceiro ano do Ensino Médio eu terei de pautar. Ensinar, intermediar, ensino tradicional ou construtivista? Qual método utilizar? Que indagação besta e fora de propósito, piá. E para confirmar um discente me questiona se fazia muito frio quando da tal guerra.

 Deus nos acuda, afirma uma professora ao o causo eu lhe contar. Ao passo que Paulo, mais sábio, corrige: acusa, acusa... Só não sei de quê. O que fizemos? - questiona em tom de lamentação. Uma professora católica, conservadora, eleitora de Alckmin, que acredita que faz parte da elite por ganhar 2 mil reais por mês enquanto alguns dos pais de seus alunos passam fome, tripudia: não reclamem, é melhor que Cuba. Por que você não vai pra Cuba? - pergunta ironicamente. E se vai. Vai com as cartilhas do governo do Estado repleta de erros ensinar que devemos simplesmente aceitar a miséria em que vivemos. E agradecer.

(Tempo depois foi afastada porque estava obrigando os alunos a rezarem. Acontece).

 Mais quatro turmas e encerro o meu expediente, duro expediente. No ponto, pego o celular, acesso o tuíter e vejo que uma crueldade foi cometida contra um jumentinho. Um monstro tentou matar a pauladas, a não conseguir, usou uma faca. E ainda enterrou o bicho vivo. Essa notícia, que não é fictícia, acabou com meu dia. No ônibus pisam no meu pé, empurram-me, mas mais nada importa: nem mesmo a criança a dormir ao relento, algo que passa a parecer até uma violência normal perto da cometida contra o pobre jumentinho. E pergunto-me: por que tanta maldade?

Chego em casa, e lá pelas tantas ligo a tevê e lá está a passar um comercial de uma empresa que se diz de processamento de carne, e que paga milhões por uma simples intervenção. Um aluno, dias antes, me perguntara porque apesar da concessão pública as emissoras não discutem a questão do consumo de carne. Talvez aqui esteja a explicação. Ou não?

E continuamos. E continua a programação, daquele mundo da tevê, que estréia uma novela sobre um bairro de classe trabalhadora, vulgo periferia, que os protagonistas, como era de se esperar, não são trabalhadores. Ou seja: não são seus verdadeiros protagonistas.

Louva-se o casebre. Louva-se o que emerge da intensa marginalização. E dizem: veja só, morar numa casa com goteira, pequena, sem acabamento e sem mesmo rede de esgoto não é tão ruim. Vai assim: é só tocar um funk, dançar e o que a vida tem de bom, mesmo assim, é passível de se aproveitar. Comemorar.

O quê?

Perco a paciência, desligo a tevê e em busca do que fazer enquanto as atividades das próximas aulas hei de aprontar, ligo o rádio e lá está Jabor, na CBN, a propalar: o capitalismo venceu!

E nós todos perdemos, complemento antes de uma vez mais perder a paciência e desligar o rádio.

Poder Popular por Raúl Zibechi

Não é possível um mundo melhor, socialista, onde as estruturas do Estado burguês, toda sua forma de controle e reprodução da ordem sejam mantidas. É um paradoxo que muitas vezes se viu e os resultados, obviamente, não foram bons. É por isso que a luta pela construção do Poder Popular é de enorme importância e jamais deve ser marginalizado sob qualquer hipótese ou circunstância. Não há poder popular se quem determina os rumos não é o povo.

A seguir, apresentamos um
a síntese do pensador marxista uruguaio Raúl Zibechi sobre o tema do Poder Popular. Tradução e adaptação de Ivan Barbosa Hermine, integrante do Comitê Central do PCB.


Sobre o Poder Popular, os debates, as discussões, os escritos em torno deste tema têm uma longa história, quer no movimento socialista ou nos movimentos revolucionários do mundo. Diria mesmo que antecede os escritos de Marx, porque na própria revolução francesa houve forma de organização popular. Embora eu não vá considerá-la, seria interessante que levem em consideração como antecedentes aos debates sobre como exercer o poder de uma forma que não seja uma réplica, um decalque, uma cópia, como disse Mariátegui, do poder burguês, com base no que seja o Estado.

O próprio Marx pouco considerou este tema na maior parte de seus escritos. É sabido que Marx abordou, de forma muito intensa, a análise econômica, mas não abordou o tema do Estado, do poder, com a mesma intensidade. No Manifesto Comunista, tendeu a deixar o terreno numa situação dúbia, com pouca definição. Marx falava da classe erigida em classe como tal ou classe para si, ou falava da democracia, mas nunca sobre o poder exercido pela classe trabalhadora, a classe operária.

Foi a partir da “Comuna de Paris”, do que foi a experiência da “Comuna de Paris”, a partir do momento no qual os trabalhadores se erigem no poder, na Comuna, é quando Marx começa a refletir e basicamente o texto dele que reflete sobre isto é a guerra civil na França, uma declaração da Associação Internacional dos Trabalhadores, da AIT. É a partir deste momento que ele elabora a ideia da ditadura do proletariado, basicamente o poder dos trabalhadores, que se fundamenta no que seria a destruição do Estado burguês. Marx diz neste texto: os trabalhadores não podem assumir a máquina do Estado e colocá-la em funcionamento como antes, mas sim destruir a maquinaria do Estado burguês e começar a gerir um poder que, em seu nascimento, vá em direção à extinção do Estado. Essa ideia da extinção do Estado é muito importante, muito recorrente em Marx. É aí que trabalha a ideia da ditadura do proletariado e, sobretudo, de um tipo de poder no qual os cargos eleitos, as pessoas nomeadas para exercer o poder são permanentemente removíveis, não ficam de uma maneira fixa neste lugar. Para Marx, a ideia de burocracia civil ou militar é uma ideia a erradicar no futuro poder dos trabalhadores e, nesse sentido, a “Comuna de Paris” lhe dá uma série de ideias e experiências muito ricas para sua reflexão. Em que sentido? No sentido de que lhe permite pensar o poder como algo não separado das pessoas, como algo controlado pelas pessoas, como algo que pode e seria bom que fosse rotativo, que não houvesse um grupo de pessoas especializadas em exercer o poder, separadas das pessoas, e além disso, que tivessem as remunerações similares às de um operário qualificado, que não tivessem um salário privilegiado. A partir daí, da ideia da ditadura do proletariado, a ideia deste tipo de poder já é desenvolvida a quase meio século depois pelos revolucionários russos, basicamente por Lênin e pelos bolcheviques. È interessante constatar como, até 1905, os bolcheviques não tinham uma proposta acabada de como seria o Poder Popular, o poder operário na revolução russa.

São as massas populares que, em 1905, criam os soviets, voltando a criá-los depois da revolução de fevereiro. Derrubam a monarquia em 1917, instalam novamente os soviets e Lênin, dessa maneira, diz que as massas operárias, camponeses, soldados, ou seja, operários e camponeses em armas criam uma forma que são os soviets, ou seja, são parlamentos de delegados operários, camponeses e soldados. Lênin toma essa forma, essa fórmula, erigindo o mecanismo de poder. Em determinado momento, em junho e julho de 1917, diz: ”todo poder aos soviets”.

Que analogia poderíamos estabelecer entre este momento de 1917 e a “Comuna de Paris”, 40 anos antes?

Não é que os revolucionários já tinham em seus estudos, em seus escritos, uma teoria acabada de como seria o Poder Popular. Não é que os revolucionários elaboraram intelectualmente, teoricamente, uma ideia do Poder Popular. É a experiência viva dos setores populares da classe operária que leva os dirigentes revolucionários, no primeiro caso Marx na AIT, e depois Lênin e os bolcheviques, a teorizar a importância de um poder.
No primeiro caso, a ditadura do proletariado, o poder dos operários na “Comuna de Paris”, dos operários e do povo parisiense, e no segundo caso os soviets.

Hoje, quando precisamos aprofundar as reflexões, são dois momentos muito interessantes, não para copiar, não para imitar, mas sim para se ter um impulso político e teórico na mesma direção.
A experiência das massas, a luta de classes é fundamental. É o elemento central de nossas reflexões como socialistas, como revolucionários. A experiência somente não é tudo, evidentemente, mas sim é necessária tê-la como elemento fundamental.

Numa segunda instância, Marx e Lênin tratam de sistematizar esta experiência, a era comuna e a era dos soviets. Extrair dali os elementos que consideram os mais importantes e, a partir dessa elaboração teórica, devolver aos organismos de poder o que eles consideram que são as bases sobre as quais podem melhorar uma criação, naturalmente uma criação espontânea dos setores populares que tem aspectos notáveis e problemas. A reflexão teórica seria regatar a criação e lhe devolver aqueles elementos que permitam que essa criação seja melhorada e não caia numa questão de inércia, de burocracia ou de deformações.

Este jogo, que não é um jogo, é uma séria política revolucionária: estar com as massas, resgatar sua experiência ou o mais avançado de sua experiência, decantar aqueles elementos mais anticapitalistas ou mais revolucionários, devolver esses elementos de forma que possam aprofundar sua experiência. Precisamos refletir, reviver e, sobretudo, se me permitem exagerar um pouco, reproduzir, imitar.

Na América Latina, dando um salto das experiências europeias para a América latina, temos tido, desde a revolução cubana até hoje, uma enorme quantidade de experiências de luta de classes, de luta de massas, de lutas operárias, camponesas, estudantis e de novos sujeitos que emergem nas últimas décadas, indígenas, mulheres e outras experiências muito ricas. Em alguns casos, essas experiências deram lugar a criações que não foram necessariamente de Poder Popular, mas que estiveram muito próximo de criar órgãos de Poder Popular. Não vou deter muito na Revolução cubana, como todos sabem criou os CDR, mas sim em outras experiências mais recentes, como a equatoriana, que no ano 2000 criaram os Parlamentos populares, provinciais. Duraram poucos meses, mas foram órgãos importantes de Poder Popular ou no caso da Bolívia, quando as revoltas, principalmente a de 2003, criaram, na zona do altiplano, os quartéis indígenas que, de alguma maneira, foram órgãos de Poder Popular.

Uma problemática que temos hoje e que nos faz falta, é aprofundar o que entendemos por Poder Popular. Vou colocar algumas questões e posteriormente as irei responder.

Um movimento social é um Poder Popular?

Minha primeira resposta é não. É um elemento fundamental de organização popular, mas não necessariamente é um órgão ou forma do Poder Popular.

As grandes mobilizações sociais, que temos tido nas últimas décadas na América Latina, são formas de poder Popular?

Eu diria que são instâncias capazes de destituir governos, de neutralizar o modelo neoliberal, mas não necessariamente criaram órgão do Poder Popular.

Na América Latina, foram criados órgãos do Poder Popular na Bolívia, durante o governo de Juán José Torres (Asamblea Popular, 1970). Anteriormente, surgiram as milícias operárias e camponesas na Revolução de 1952. Na Argentina, por algum tempo, a classe operária organizou as “Cordinadoras Fabriles” em Buenos Aires, no ano 1975. Era um poder transitório, um poder da classe operária argentina para fazer frente à burocracia sindical que reprimia os próprios trabalhadores, na gestão José López Rega, criador da “Triple A” (Alianza Anticomunista Argentina). Os sindicatos peronistas argentinos abalaram a repressão da Triple A. No Chile, tivemos a experiência dos “Cordones Industriales” em Santiago, no governo Salvador Allende.

Os Partidos de esquerda não se preocuparam com essas experiências, exceto o MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria) do Chile.

Como trabalhar para impulsionar a criação desses órgãos?

1 - O MST no Brasil: cada assentamento é uma forma de pequeno poder, um órgão de Poder Popular. Nesses assentamentos, funcionam poderes distintos dos estatais, com educação e pedagogia diferenciadas das estatais. Seria um dos vários mecanismos de reconstrução da sociedade brasileira, tanto no plano produtivo, organizativo e de poder, caso formassem um processo de luta de classes e de transição a uma nova sociedade.

Há várias experiências deste tipo na América Latina (Bolívia, Equador, México, Venezuela).
São movimentos que conquistaram territórios ou espaços urbanos e a população organizada toma as decisões sobre o que deve ser feito.

2 - Na Venezuela, o governo apoia tais experiências, as “Comunas”, as iniciativas do movimento popular, rural ou urbano. Seria uma base possível para um poder. O governo promove a criação de comunas. Essas experiências nem sempre são iguais.

3 - No México, há duas experiências distintas de Poder Popular. A primeira foi a “Comuna de Oaxaca” em 2006. Parte da população controlou a cidade durante seis meses, utilizando mais de mil barricadas. Chegou a ter cadeia de rádio e televisão sob seu controle. Havia uma Assembleia Popular que foi o órgão de poder nesses seis meses.

Diga-se de passagem, que Poder Popular na cidade é diferente do Poder no campo. Nas áreas rurais, a presença do Estado é mais diluída. É possível tomar um território, defendê-lo e organizá-lo de maneira particular. Na cidade, está o núcleo do poder da burguesia, do Estado burguês. Há grandes dificuldades de se estabelecer formas de Poder Popular. Em Caracas, na Venezuela, há uma exceção: há várias ocupações do “Movimiento Pobladores” com cerca de trezentos edifícios tomados e geridos pelo movimento.

A outra experiência, no México, é o “zapatismo”. Trata-se de uma experiência rural de caráter indígena em regiões remotas. Os indígenas da América Latina estão organizados em comunidades, formas de poder num pequeno território. Um grupo de famílias tomam decisões políticas, econômicas, culturais e sociais. As comunidades são micropoderes.

Os zapatistas possuem três níveis de poder autônomo:

1 - Comunidades (cerca de 1.200);

2 - Municípios autônomos ou comunidades agrupadas (38 municípios);

3 - Regiões autônomas, também denominadas “Caracoles” ou “Junta Del Buen Gobierno” (5 regiões).

A forma de governo é bem parecida com a “Comuna de Paris”. As bases nomeiam representantes que podem ser destituídos a qualquer momento. São mandatários para cumprir uma tarefa concreta, devendo prestar contas à população, às bases ou comunidades. A participação nesses órgãos não é remunerada. É a comunidade que sustenta a família ou pessoa que assumiu o cargo. A participação é igualitária entre homens e mulheres. É um poder subordinado ao coletivo, revogável, sujeito a substituição. Um poder para lutar e transformar a sociedade.

A partir dessas reflexões, podemos levantar algumas questões:

1 - O Poder Popular não é o Estado. É algo distinto e em conflito com ele. É uma auto-organização de sujeitos revolucionários. É um sujeito múltiplo que se dota de formas de poder.

2 - Qual a relação do Poder Popular com o Estado?

Pode haver relações de cooperação e de conflito, de diálogo ou confronto. É difícil que só haja um tipo de relação. O conflito estaria sempre presente, pois são poderes diversos. Se o governo for direitista, sempre haverá tensões, fortes conflitos. Se o governo for de esquerda, progressista, poderia acontecer duas situações: o governo teria uma lógica em relação ao Estado e outra lógica em relação ao Poder Popular.

Em que grau este governo progressista estaria apoiando o Poder Popular? Um apoio total ou parcial?
Mesmo sendo um governo progressista, o conflito sempre se manifestaria.

3 - Nos espaços dominados pelo Poder Popular, não poderá ser reproduzida a lógica da burguesia, a lógica do capitalismo. As práticas capitalistas devem ser contidas e potenciadas as práticas comunitárias, socialistas, coletivas, comunistas, enfim, práticas não capitalistas. O Poder Popular não pode ser fotocópia do Estado. Tem de ser um poder diferenciado. É uma ferramenta nas mãos da população.

4 - Sobre a crise do socialismo real, a crise da União Soviética, a crise do campo socialista, gerou uma falta de debates sobre estes temas. Até o final dos anos 80 e início dos 90, os debates sobre o Poder Popular estavam sobre a mesa. Uns optavam pelas comunidades, outros pelos soviets, com uma gama importante de propostas e debates.

5 - Hoje, o debate sobre o Poder Popular está praticamente abandonado. Tomar o poder do Estado e reproduzir o seu funcionamento não é suficiente para avançar por um caminho alternativo. Além disso, o Estado é uma maquinaria muito perversa, reproduzindo estadistas, funcionários e burocratas. É uma máquina afastada da população, por isso, é necessário retomar as discussões, intensamente, sobre o tema Poder Popular.

6 - Isto não quer dizer que, em certos momentos, não seja positivo que forças progressistas assumam o governo do Estado a fim de que a classe inimiga não o use contra as forças populares. Este é outro debate.

7 - Meu desejo é centrar sobre a importância do Poder Popular, recuperar as experiências históricas, rediscutir os soviets, rediscutir a “Comuna de Paris”, rediscutir as comunas e as experiências latino-americanas, algumas das quais anteriormente mencionadas. Abrir um espaço para discutir o Poder Popular é uma forma de aprofundar o trabalho por uma sociedade diferente da atual, pela revolução e por uma mudança de longa duração.

Vídeo no YouTube - em espanhol.

10/05/2015

Curso Básico: Introdução à Crítica da Economia Política - PCB

 Já diria Lenin: todo comunista deve estudar, estudar, estudar... Não há como mudar o mundo sem a luta, a prática, mas tampouco a orientação será correta sem a consciência exata da ação e do mundo que a cerca.

 E uma das características históricas e sine qua non do Partidão, o PCB, é primar por uma militância com uma boa formação (e no passado o Partidão foi acusado de elitista por isso por gente que chama a classe média de burguesia e divide a conjuntura nacional em lutas dualistas politiqueiras com a profundidade de um pires...).

Eis que os militantes de São Paulo organizaram por meio do Wagner Farias uma série de hangouts para debaterem o tema que dá título à esta postagem: introdução à crítica da economia política.

Sugiro vivamente.

Assista ao vídeo no youtube: clique aqui



07/05/2015

Sexo casual. Ou sexo como coisa.

 Em 2007 eu assistia sempre ao programa do Jô Soares. Naquela época eu estava no segundo ano do Ensino Médio, tinha acabado de tomar a infeliz decisão de estudar a noite e só conseguia pegar no sono logo após o Corujão, que era transmitido pouco depois do Intercine (no qual você ligava pra escolher o filme predileto, geralmente enlatados estadunidenses, mas que entretinham) e se encerrava lá pelas 5 da manhã. Bons tempos. Ou nem tanto.

 E foi no programa do Jô, no referido ano, que vi uma entrevista que me marcou muito: um humorista de stand up (stupid) comedy disse no programa que não tinha a intenção de casar e que vivia muito bem com relações sexuais casuais. Inquirido pelo apresentador como se davam essas relações, começou ele a contar sobre cada uma delas: como no dia que levava uma moça pra transar em seu apartamento, não se aguentou, realizou o ato no carro mesmo e depois a deixou no meio da rua, ainda meio que despida; ou quando expulsou de casa uma moça de seu apartamento após a transa mesmo a moça a lhe pedir para ali dormir, pois sua casa seria muito distante e não haveria transporte público disponível (o humorista é paulistano).

 Não me espantei, mesmo à época com 16 anos, com esse tipo de discurso. Aquilo na verdade era o que eu ouvia em todo e qualquer lugar a respeito de como se deveria tratar mulheres. Sobretudo aquelas que "não seriam pra casar". O espanto veio-me retroativamente. E como várias pessoas daquela platéia -- incluso o apresentador -- riam daqueles causos, uma coisa absurda.

Óbvio que comportamentos assim são naturalizados e não espanta que estejam por aí disseminados. Mas por quê? Machismo, sexismo, patriarcalismo? Sim, também. E com eles -- que não estão dissociados, mas fazem parte de uma mesma coisa, que é como lidamos concretamente com o mundo e a partir dele criamos símbolos, signos, os quais são transferidos para a forma como vemos os demais e esse próprio mundo -- a coisificação das relações, algo bem próprio do estágio capitalista em que vivemos.

Tudo é coisa e tudo é consumo. E o que se consome é logo depois descartado. E assim as pessoas são tratadas. E também as mulheres. Mesmo aquelas com quem compartilhamos coisas as mais íntimas. E também os homens.

Sim, homens também são tratados como objetos. E cada vez mais (que não me surja alguém falando em male tears ou esses memes chulos que empobrecem qualquer discussão. não estou falando que a opressão sobre homens é igual ou pior a que sofre as mulheres).

Aos poucos já se desconstrói a lógica ilógica de que apenas homens gostam de sexo ou que apenas nós homens procuramos sexo casual. Hoje mesmo li um texto no Diário do Centro do Mundo que versava sobre isso. O problema é que o tal sexo casual, ou qualquer outra relação no mesmo âmbito, está cada vez mais imbuída do senso das proporções das coisas: você é um objeto, o outro também, e ambos se usam mutuamente. E depois se jogam fora.

É deprimente. É a falência das relações. É a vida como um filme pornô desses que tratam mulheres de forma completamente degradante -- só que aqui estendido a todos os gêneros, democraticamente.

E o mais curioso é que inclusive as relações institucionalizadas, como as supracitadas, também refletem o mesmo tipo de problema. E tudo vai a se resumir em uma pobreza humana monumental, sem essência e substância.

Sim, é possível se relacionar sexualmente com alguém sem o tratar como coisa, estabelecendo um vínculo, uma troca, uma relação de respeito e cumplicidade. Isso é plenamente possível. Mas não em um mundo onde a medida de todas as coisas é um produto numa prateleira pra ser comprado, usado e jogado fora.

 Esse mundo é essencialmente inumano. E está a um passo da barbárie -- se é que ele já não o é.

Winter is coming

Texto² do Dr. Wilson Gomes¹ - Docente da UFBA.

Esta manhã, com pesar, abandonei ruidosamente o meu grupo de colegas de tênis no WhatsApp. Olha que é gente com quem jogo há mais de dez anos. Atravessei duas ou três eleições no grupo, como Homero voltando de Tróia, sendo diariamente ensinado, orientado, castigado e corrigido na minha formação e entendimento da política. Recebi milhares de links da Veja, dezenas de milhares de cartas-correntes com denúncias absolutamente relevantes contra o PT, Lula e Dilma, milhões de “memes” e vídeos destinados a forjar e nutrir o meu ódio ao governo, ao bolivarianismo, aos petralhas, aos esquerdopatas e “aos políticos que estão aí”. Se hoje não estou ainda convencido de que o Brasil só melhora quando Dilma for enforcada nas tripas de Lula depois de forçada a comer o coração de Zé Dirceu num milk-shake de baunilha, a culpa não é certamente de alguns dos meus amigos que cotidiana e inutilmente tentaram me oferecer a justa perspectiva das coisas.

Como diz a profecia, winter is coming. Acho até que já começou nos grupos de Whats App e nos rodapés dos jornais online. E avança sobre as mídias sociais em geral. Chegamos a um ponto, meus amigos, em que, a depender da sua rede social, você é minoria até quando é um sujeito moderado. E minoria constrangida. Como assim você votou contra Dilma, mas não apoia o impeachment?! Está louco? Como assim Lulinha não é dono da Friboi?!! Não sabe ler? Como assim não pode chamar Dilma de vaca, se ela fode com todo mundo?! Como assim a corrupção não é principal problema brasileiro?!! Vai me dizer que é petista incubado, é?! Assume logo que é petralha, porra!! Diz logo que tá tudo bem na merda desse país! Você deve ter rabo preso com esse governo pra tá falando essas merdas todas, só pode, deve levar um por fora para defender esse sacana do Lula, cachaceiro e ladrão filho da puta!!! E la nave va.

Sinceramente? Eu não importo se a era do PT na presidência da República estiver chegando ao fim. Uma hora ou hora vai acabar mesmo. Além disso, não sou petista e o meu desgosto com o partido alcançou o seu ponto mais alto até agora. A questão, para mim, é que a onda de antipetismo está trazendo consigo um avanço conservador e direitista de grandes proporções. E que ambas alcançaram velocidade máxima desde o final da eleição passada. O sujeito não é mais contra o PT, digamos, por causa da corrupção. O sujeito é contra o PT, mas também contra qualquer perspectiva de esquerda (“comunista” voltou a ser xingamento, coisa que não era desde 1989), detesta direitos humanos, acha que políticas sociais são a causa dos nossos problemas sociais, tem certeza de que os gays querem privilégios e não direitos, sabe que a ausência de proteína na alimentação dos nordestinos é o que sustenta o PT no poder. Tudo é assimilado no mesmo pacote. E se vão reduzindo os escrúpulos em manipular dados, reproduzir disparates, dizer e fazer barbaridades, principalmente em ambientes virtuais fechados (como os grupos de WhatsApp) ou onde se possa postar anonimamente (como nos comentários online de certos jornais e blogs, e em determinados sites de redes sociais).

É uma pena. Gostava daquele grupo, mas não tem mais jeito. Mesmo pessoas legais vão sendo possuídos pela sanha antipetista, anos de recalque de conservadorismo encontrou, enfim, uma brecha para vir tomar um solzinho na esfera pública. As incontáveis bobagens cometidas pelo PT, enfim, concedeu-lhes o argumento e a convicção moral de que precisavam. O resto fica por conta do dogmatismo & proselitismo, à moda das Testemunhas de Jeová, em que qualquer um, não importa a sua inteligência ou formação, deve ensinar a e corrigir todos os outros que (ainda) não pensam como ele. Afinal, quem diverge ou hesita só pode estar errado, e cabe às almas moralmente superiores mostrar-lhes o caminho e resgatá-los, ao mesmo tempo, das trevas da ignorância e da indigência moral. E assim nasce o inferno dos grupos do WhatsApp.

Amém, pessoal?

¹ - Wilson Gomes (1963) é professor Titutar de Teoria da Comunicação na Universidade Federal da Bahia, pesquisador e orientador no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas daquela universidade. É graduado, mestre e doutor em Filosofia (Universitas a Scte. Thomae, Roma) e graduado em Teologia (Universitas Gregoriana, Roma). Doutorou-se em 1988 com uma tese sobre a idéia de construção da realidade no Idealismo Alemão, na Fenomenologia e na Hermenêutica. Em 1998, realizou estágio pós-doutoral em Cinema na Universidade de São Paulo. Desde 1989 ensina, pesquisa e orienta na área de Comunicação, nas especialidades de comunicação e política e democracia digital. É autor de Transformações da política na era da comunicação de massa (S. Paulo: Paulus, 2004 e 2008), de Jornalismo, fatos e interesses (Florianópolis: Insular, 2009) e co-autor, com Rousiley Maia, de Comunicação & democracia: problemas e perspectivas (S. Paulo: Paulus, 2008) Fonte: Lattes.

² - Texto publicado em sua página no Facebook.

05/05/2015

Sobre panelas e panelaços

Como comunista, e o comunismo é a democracia na sua essência, sem limites, eu acredito que toda manifestação política é legítima de ser realizada, pois ela traz em si não a causa, mas a consequência. Mesmo as mais monstruosas, como as que defendem segregação e inferiorização de grupos, como as nazi-fascistas com caráter eugenista, quando aparecem, não é para serem criminalizadas varrendo-as para debaixo do tapete sem melhor compreendê-las, mas sim de entender o fenômeno em toda sua amplitude -- que não à toa sempre tem como bojo uma crise capitalista.

É por isso que acho legítimo que pessoas se expressem contra o que quiserem. E a manifestação da classe média (e não burguesia, por favor) contra o PT é isso. Só que eu não me solidarizo com ela.

E por um aspecto bem simples: as pessoas que batem essas panelas em muitos casos, certamente quase que a totalidade deles, não querem nada que não seja a derrocada do Partido dos Trabalhadores e da esquerda. E nem bem sabem o porquê. Alegam vários problemas de fato concretos da sociedade, como saúde, escola e qualidade de vida, e culpam a corrupção, mas votam em candidatos e defendem discursos que apenas piorariam ainda mais esse quadro -- como o neoliberalismo. Quando não, no cúmulo da hipocrisia, criminalizam de modo fascista lutas proletárias que buscam atingir estes objetivos.

O ato de bater panela tornou-se famoso contra Allende, no Chile. A classe média baixa reclamava do crescimento dos preços e, em decorrência disso, a cozinha estar mais vazia de alimentos. Tempo depois o mesmo método foi usado contra Pinochet, que ia um pouco além, é verdade, mas que tinha como base a desigualdade social e a miséria por qual parte da sociedade passava e sofria. Na Argentina, no começo dos anos 2000, a mesma coisa: o empobrecimento dos setores médios e a alta de preços de alimentos com inflação, que também fazia parte do cardápio triste daqueles tempos.

O Brasil hoje vive um momento economicamente ruim, com alta inflacionária e medidas sugeridas pelo Governo Federal que atingirão em cheio a classe trabalhadora. Mas não é, pelo menos por enquanto, a classe média a maior vítima dessa situação: pesquisa da USP nos protestos anti-PT em Abril mostrou que quase 50% dos manifestantes recebem salário entre 7 e 15 mil reais. Como alguém assim pode sentir tão ferozmente taxa de inflação que flutua entre 1 e 2% do limite com o qual o governo petista vinha a trabalhar? Eventualmente essas pessoas não passaram a comer menos. E nem ter uma vida significativamente pior.

Se esses protestos surgissem nos bairros de classe trabalhadora, as ditas periferias, mesmo com argumentos de senso-comum equivocados, eu seria mais simpático a eles. Pois de algum modo haveria sentido: apesar do elevado crescimento da economia nacional nos anos de governo do PT, não se verificou melhoria significativa senão na política de consumo. Serviços públicos e tudo que tange a vida do trabalhador em espaços urbanos continuaram caóticos com melhorias específicas intercaladas com violência, trânsito, poluição e, principalmente, jornadas de trabalho extenuantes com salários não condizentes com o que foi produzido.

Só que não é esse o cenário da classe média que bate panelas. Ela não mostra insatisfação com o modo que o governo tucano -- que instaurou vários modelos que o PT continuou, inclusive de corrupção - gere o Estado mais rico do país, com a epidemia de dengue, a falta de água e o descalabro na educação pública estadual (cito São Paulo por ser o berço do antipetismo, onde ele se apresenta mais fortemente).

É um protesto de uma gente com falsa consciência, pois não é de elite, mas se vê como tal. E pede medidas que aumentarão ainda mais o fosso entre eles, setores médios, e a burguesia que de fato manda e que não tem muito o que reclamar do Partido dos Trabalhadores.

No entanto, como expus em outros textos, é preciso fugir dos discursos obtusos do petralhas vs coxinhas. Essa classe média que protesta tem seus motivos e eles são economicamente cristalinos (veja o texto anterior). O problema, repito, é o modo como fazem, os discursos utilizados, de uma ignorância política de ruborizar a qualquer um com dois neurônios e o caráter um tanto que fascistóide de alguns.

Entendo sua legitimidade, mas não me solidarizo com eles. E fico extremamente triste, embora não surpreendido, quando vejo essas "pessoas que batem panela por um Brasil melhor" elogiando PM que bate em professor; PM que vai nos bairros de classe trabalhadora assassinar jovens e adultos pobres trabalhadores; que fazem discurso racista; homofóbico; segregacionista, anti-povo etc. O que essas pessoas querem não é um Brasil melhor. É um Brasil em que elas possam se sentir muito acima das demais. Inclusive com direito de vida e morte sobre elas. Só que esse Brasil, mesmo que suas idéias venham a cabo, nunca virará realidade pra essas pessoas, pois elas são miseravelmente apenas uma turba de classe média. E são tão elite econômica quando eu.

03/05/2015

Anti-petismo para além da versão chula petralhas vs coxinhas

                                                             Causas econômicas do antipetismo da classe média

Golbery Lessa (membro do Comitê Central do PCB)

Se a esquerda deseja ter clareza sobre como agir diante da ampliação das manifestações organizadas por setores reacionários da classe média, precisa procurar uma explicação científica para o fato e não embarcar na versão apresentada pelo governo federal. É mais fértil procurar entender as bases econômicas, culturais e políticas do reacionarismo do que concebê-lo como um improvável desvio moral simultâneo de milhões de indivíduos. Seria desastroso fundamentar apenas na intuição o discurso e as ações contrários às dimensões ultradireitistas das manifestações corridas no 15 de março. Para a esquerda, é mais importante tentar compreender os fatos do que promover uma competição para saber qual dos seus analistas ridiculariza melhor o bizarro discurso das passeatas verde-amarelas e cria o mais engenhoso anátema para estigmatizar os setores médios.

É infértil fazer uma análise estanque das ideias e das posições políticas da classe média. Não é sustentável considerar que este grupo social tenha condições objetivas apenas de comportar-se e expressar-se de modo conservador. Como demonstrou Karl Marx, ainda no século XIX, é próprio dos setores médios da sociedade moderna oscilarem entre posições ideológicas e políticas de direita e de esquerda e, inclusive, misturarem essas posições antípodas. Na atual conjuntura brasileira, uma das provas desse movimento pendular é o fato de que um setor numeroso da mesma classe comporta-se de maneira progressista, defende a esquerda e repudia o discurso do tipo proferido por Jair Bolsonaro.

Nos últimos anos, o marketing do governo federal apostou na estigmatização dos setores médios com o objetivo de aproveitar o descontentamento de alguns dos seus estratos com o PT para “provar” que “a tradicional elite brasileira” seria contrária aos “avanços sociais” dos governos Lula e Dilma. Manipulou o sentido da palavra “elite” para que esta abarcasse apenas a classe média e fez desaparecer nessa bruma sociológica a grande burguesia aliada aos petistas. A família com renda de cinco salários mínimos ou mais começou a aparecer na fala governista como a adversária natural dos trabalhadores e a senadora Kátia Abreu, para surpresa do público, passou a ser mostrada como heroína da economia brasileira. Como cereja do bolo dessa sociologia pelo método confuso, possivelmente criada pelo marqueteiro João Santana, enquanto a classe média real se contraía, os governos petistas fantasiavam sobre a existência de uma “nova classe média” formada pelas famílias de trabalhadores com carteira assinada e acesso ao consumo de massa.

Para compreender as últimas manifestações de direita contrárias ao governo Dilma é preciso, igualmente, desconfiar dos motivos alegados pelos próprios setores médios envolvidos, pois um grupo social não é, necessariamente, o que afirma de si mesmo. Para parte da esquerda, é tentador imaginar que uma fatia da classe média está insatisfeita apenas devido a arraigados preconceitos contra os pobres, as minorias étnicas, a população LGBTT, o campesinato e o operariado, entre outros grupos. Entretanto, se observarmos os dados empíricos existentes, é possível perceber que a insatisfação tem outros motivos, a maioria de ordem econômica.

Comecemos pelo que tem sido esquecido pela maioria dos analistas: observemos os dados empíricos sobre a trajetória econômica e demográfica da classe média na Era PT.
Entre 2001 e 2013, na Região Metropolitana de São Paulo (RM-SP), palco da maior manifestação do dia 15 de março passado, segundo a PNAD/2013, o número absoluto de famílias de classe média (consideradas como aquelas cuja pessoa de referência da família tinha renda mensal de cinco salários mínimos ou mais) diminuiu 31,57%, enquanto o número absoluto de famílias da classe trabalhadora (consideradas como aquelas com renda mensal inferior a cinco salários mínimos) ampliou-se 57.64%. Se observarmos a variável contabilizando a renda de todas as pessoas do núcleo familiar, a situação melhora para a classe média, entretanto, a sua trajetória passa a ser de crescimento (12,00%), mas muito menor do que o da classe trabalhadora (65,48%). Mesmo nesse caso, os estratos entre 10 e 20 salários mínimos e acima de 20 salários mínimos tiveram encolhimentos absolutos de 23,00% e 38,90%.

A constatação é ainda mais surpreendente quando comparamos esses números com aqueles das mesmas variáveis e dos mesmos parâmetros imediatamente referidos entre os anos de 1991 e 2000. Nesse intervalo de tempo, segundo os censos demográficos do IBGE, o número absoluto de famílias de classe média no Estado de São Paulo (não tivemos acesso a dados da RM-SP para o período) quase dobrou (96,61%) e o de famílias da classe trabalhadora ampliou-se em apenas 19,70%. No país, os números foram, respectivamente, 185,26% e 21,00%. Primeira conclusão: a Era PT estancou o desenvolvimento demográfico da classe média e fez dois dos estratos desse grupo social encolherem.

Se corrigirmos pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Ampliado) o valor nominal da renda média mensal das famílias calculado na PNAD/2013, constataremos que, entre 2001 e 2013, todos os estratos salariais da RM-SP tiveram um ganho real de renda aproximado de 38%. Será que a melhoria da renda das famílias de trabalhadores originou-se em recursos anteriormente de posse dos setores médios? Como, ainda segundo a PNDA/2013, apenas 4,39% dos integrantes da classe média da RM-SP eram, em 2013, empregadores de trabalhadores não-domésticos (nesse número estão inclusos os membros da grande burguesia, pois IBGE não os discrimina) e 7, 07% dos assalariados eram trabalhadores domésticos, a melhoria da renda dos trabalhadores na Era PT não pode ter se originado, a não ser residualmente, de recursos provenientes da classe média.

O aumento da renda dos trabalhadores na Era PT foi determinado por uma significativa ampliação da oferta de empregos formais em um momento de relativa estabilidade monetária. Uma tendência econômica presente em dezenas de países do Sul do planeta na primeira década do século XXI e condicionada pelo deslocamento de grandes massas de capital para a periferia do sistema. Configurou-se como um ganho dos trabalhadores na luta econômica contra o capital, mesmo que as grandes empresas tenham abocanhado a maior parte da riqueza derivada do aumento de produtividade e da ampliação das escalas produtivas. A classe média não perdeu nada com o avanço do consumo dos trabalhadores, a multiplicação dos empregos e a expansão (mercantilizada) de algumas políticas sociais, como o Bolsa Família e os subsídios para matrículas no sistema de ensino superior. A baixa qualidade da maioria dos cursos universitários e a precariedade da assistência estudantil, entre outras variáveis, fizeram com que expansão da presença dos trabalhadores no ensino superior não lhes tenha garantido efetiva capacidade de competição com os setores médios no mercado de trabalho, representando mais uma ganho simbólico do que uma efetiva qualificação (com exceção das trajetórias individuais particularmente exitosas e motivadas por talento excepcional).

A contração demográfica de estratos da classe média foi determinada por duas variáveis: 1) nos 13 anos considerados (2001-20013), o aumento de 38% na renda real mensal não foi suficiente para cobrir o crescimento das necessidades de consumo impostas pela dinâmica da sociedade a esta classe; e 2) a reestruturação produtiva das empresas privadas e órgãos públicos, no início do século XX, baseada na diminuição dos níveis de chefia e no avanço tecnológico dissolvedor de funções especializadas, diminuiu muito os postos de trabalho para os setores médios. Esses fatores atingiram de modo distinto os trabalhadores, pois suas necessidades ainda eram as básicas e os postos de trabalho que podiam ocupar multiplicaram-se.

A sociedade capitalista é estruturada de tal modo que o nível de consumo imposto socialmente aos indivíduos desenvolve-se numa espiral crescente e avassaladora. O telefone celular e o computador pessoal, por exemplo, inicialmente apenas curiosidades tecnológicas, tornaram-se instrumentos profissionais e sociais incontornáveis. A primeira década do século XX no Brasil foi marcada por um notável acréscimo de novas necessidades sociais para as famílias de classe média, sendo suficiente elencar o crescimento da adesão aos planos de saúde, a inflação das mensalidades escolares, a ampliação dos gastos com equipamentos eletrônicos e o boom do acesso à banda larga. Diante dessa tendência intrínseca ao capitalismo, apenas o aumento correspondente da renda e das oportunidades de trabalho seria capaz de evitar disfuncionalidades e insatisfação social. O choque entre o aumento das necessidades de consumo impostas socialmente e a renda foi, no período considerado, respondido pelas famílias com a renúncia ao consumo e o endividamento, uma combinação politicamente explosiva.

Também nos governos petistas, a classe média tem perdido renda para o grande capital, principalmente por meio de preços de monopólio cobrados por faculdades privadas, bancos, planos de saúde, montadoras de automóvel e outros setores. Parte deste grupo social imputará essas perdas a qualquer governo dominado pelas grandes empresas e tenderá a usar a retórica antigovernista à mão para explicitar sua crítica e propor um governo diferente, via eleição ou impeachment. Se o governo for do PSDB ou outro partido de direita, usará a retórica da esquerda, como o fez na crítica aos governos FHC e Collor. Caso o governo seja petista e o esquerda alternativa ainda não tenha adquirido visibilidade e significativo peso político, usará a retórica da direita e mesmo da extrema direita. Vejamos uma prova empírica desse movimento pendular: poucos dias antes do segundo turno da eleição presidencial de 2002, pesquisa do Instituto Datafolha mostrava que 60% da classe média paulistana, replicando tendência nacional, votaria em Lula. Na véspera do segundo turno da eleição de 2006, o mesmo Datafolha divulgava que cerca de 50% dos setores médios paulistanos votariam no candidato do PT. O antipetismo não é e nunca foi intrínseco à classe média brasileira.

O setor da classe média que se expressa, na atual conjuntura, por meio de ideias reacionárias o faz, entre outros motivos, porque percebe os governos petistas como dominados pelo grande capital, o adversário econômico por excelência da pequena burguesia. A fala contra a corrupção colocada no centro do discurso desses estratos médios é, além de uma simplificação exagerada do complexo tema das políticas públicas, uma crítica a governantes, de fato, capturados pelo empresariado. A atitude dos governos petistas de defender os monopólios e abandonar a classe média levou o discurso de setores desse grupo social a expressar-se numa retórica contra o PT, seu passado proletário, as políticas sociais e a esquerda em geral. É a fala de um anticapitalismo de direita (defende o mercado, mas é contra a acumulação, deseja o individualismo, mas é contra a igualdade de oportunidades, etc), que, por também não confiar na oposição, apela cada vez mais para entidades abstratas, com a pátria, em busca de forças políticas descompromissadas com o governo de plantão e o grande capital. É uma situação típica na qual a classe média pode se tornar presa das ideias fascistas. Algo particularmente perigoso num momento em que os movimentos sociais e os sindicatos estão neutralizados pelo direitismo do governo, pois os aludidos estratos dos setores médios tornam-se uma vanguarda reacionária que pode imantar o resto da população. A esquerda precisa, urgentemente, entender os motivos econômicos desta classe social e lhe apresentar um programa alternativo.

Notas improfícuas

Hoje é Domingo, um dia mais leve para a maioria das pessoas, e eu gostaria de pontuar em tópicos alguns temas periféricos que talvez mereçam algumas considerações:

Rachel Sheherazade no Pânico

A jor-mau-lista Rachel Sherazade do SBT e da Jovem Pan esteve no programa Pânico da rádio e foi seriamente criticada por Emílio Surita, que chegou a compará-la ao Bolsonaro. Outros da bancada não perdoaram e usaram um tom acusativo. A moça, que parece ser refém da própria ignorância, ficou surpresa com as falas contrárias à sua pessoa. Eu também ficaria... se não conhecesse quem comanda aquela rádio.

Embora o Pânico e sua trupe tenha uma certa independência em relação à emissora, já que se transformaram em algo maior que ela, ali não tem ponto fora da curva. Ataques daquela forma à Sherazade não seriam feitos se não houvesse algo anterior. O que fiquei a saber é que a emissora perdeu patrocinadores em 2015. Desde que resolveu adotar a linha jornalística da direitona que beira o fascismo e cujo o símbolo de maior ponderação é Marco Antonio Villa (!), o setor comercial por lá desandou. E como a gente sabe que na imprensa burguesa a opinião vale o quanto se paga por ela, cabeças começam a ser minadas.

Globo 50


A Globo completou 50 anos Domingo último e realizou uma série de ações pra comemorar a data. No jornalismo, como não deixaria de ser, chamou atenção a tentativa de colocar a emissora como vítima da censura durante a autocracia burgo-militar que foi instaurada por meio de golpe em 64 e que foi grande responsável pela ascensão meteórica dos Marinhos e seus conglomerados, recebendo verba pública e proteção concorrencial por meio de leis. Vários nomes da casa -- e de peso -- foram convocados pra reafirmar essa retórica absolutamente mentirosa.

Por outro lado... várias manifestações foram realizadas atacando o império dos Marinhos e pedindo a democratização da mídia, que o governo do PT engavetou uma vez mais. Blogues e perfis petistas no tuíter comemoravam a crise da Globo com a audiência. Nada mais equivocado, porém.

Como a coluna do Mauricio Stycer na Folha bem demonstrou, a Globo pode passar por um momento ruim na audiência, mas nenhuma outra emissora a ameaça. Pelo contrário: fora da tevê, a Globo é a que está mais preparada para avançar sobre outras mídias: é a que mais produz conteúdo; tem um aparato gigantesco que vai da Globo filmes à central de novelas; uma série de acordos com as principais empresas responsáveis por distribuir formatos; e enorme alcance com portais e canais tanto na internet quanto nas tevês por assinatura.

Sem a concorrência de um conglomerado internacional, a tendência é que a diferença da Globo para as demais, conforme a tevê aberta fique obsoleta, é aumentar. E muito.

Palco do Bolsonaro e Feliciano et caterva: a esquerda das redes sociais

Nem em seus melhores sonhos a turba fascistóide imaginaria que teria um palco tão bom para seus shows particulares e, deste modo, alcançar público, audiência e, claro, sufrágios: a esquerda das redes sociais, que faz de tudo pra deixar essa turba em evidência. À menor flatulência dessas coisas asquerosas, lá estão os de sempre destacando mais e mais essas figuras deprimentes. E geralmente com argumentos toscos, não raro preconceituosos ou inócuos, como ad hominem e pontos que fazem da coisa apenas uma troca de acusações sem uma verdadeira desconstrução das idéias absurdas por essas figuras propaladas.

Nisso, aliás, vem se destacando a jornalista Cynara Menezes, por quem tenho até um apreço pela boa qualidade da sua escrita -- sim, algo raro no jornalismo, hoje --, mas que fez da cruzada contra "coxinhas pelo governismo" seu objetivo de vida. Nada mais deprimente, chulo e decadente. A briga que a mesma protagonizou com Rachel Sheherazade é de envergonhar a própria e seus leitores -- deveria, pelo menos, mas eu duvido. Uma coisa assim tão baixa que barracos em programas sensacionalistas costumam ter um pouco mais de nível. Isso não é política. Não é discussão política. Isso é apenas baixaria.